30 junho 2013

O salto

Saltar é a melhor solução! Pensava ele, enquanto a mulher sorria sorrateiramente. Sobre o som mudo dos santos, sabia que seria rei. Podia ser que aquele mundano sentimento não precisasse de mais sol. Mata-o e serás solto! Que rico pesar, pensou. Não seria a pior solução; seria apenas a mais prudente. Saltar e soltá-lo, por entre os muros daquela sala, seria como renovar o sentimento, da pior maneira possível. Não poderia permitir-se sentir-se preso mais uma vez.

Carolina Cordeiro, 34 anos, Ponta Delgada, São Miguel, Açores +


Desafio nº 46 – substantivos, adjectivos e verbos começando sempre por P, M, S ou R

Coração aventureiro

Naquele momento, na praia, debaixo de um sol radioso, sonhava…
Como seria maravilhoso partir mar dentro, qual marinheiro de seiscentos, à procura de outros mares, outras paragens, outras pessoas.
Talvez até surgissem monstros marinhos, piratas temíveis ou sereias manhosas, mas tudo seria melhor do que aquela mediocridade.  
Precisava de mudar a monotonia, preencher os momentos sombrios, resolver aquela solidão.
Sentou-se no penedo mais próximo, respirou a maresia e releu o seu romance preferido “Piratas”.
Sentiu-se em paz.

Palmira Martins, 57 anos, V. N. de Gaia

Desafio nº 46 – substantivos, adjectivos e verbos começando sempre por P, M, S ou R

Partir para o mar

Depois de passear muito por Paraty, percorrer roças, saborear risoto de pitanga e robalo com manteiga, o maestro rondou os pontos de paragem dos profissionais da música e meteu-se na roda de samba.
De regresso à pousada, preparou as malas, pegou na sanfona e rumou para o porto.
O mestre preparava o saveiro, que por um mês seria a morada de Marcelo.
Quando partiu para o mar, sentia-se verdadeiramente rijo por perambular por rotas perigosas completamente sozinho.

Quita Miguel, 53 anos, Cascais


Desafio nº 46 – substantivos, adjectivos e verbos começando sempre por P, M, S ou R

Sonho

Sonho.
Seria sonho ou realidade? Parecia...
Puro sabor, puro prazer
Manuel sonhava... que maravilha!

Um sonho que só ele podia sonhar...
Mundo maravilhoso, muito misterioso...
Só ele sabia o que pensar.

Pular, saltar, mirar o mar
De muitos reflexos...
O pequeno Mário e a menina Maria
Pulavam com ele...

Mas ele saltava... em sonho!
E, ao primeiro raiar do Sol reluzente,
Manuel separa-se dele, sabendo sempre que posteriormente
Saltará e para sempre pulará no
Mundo dos Miúdos!

Rickyoescritor, 11 anos, Pedroso, VNG


Desafio nº 46 – substantivos, adjectivos e verbos começando sempre por P, M, S ou R

Marcar o mal

Num rastejante período, passei por uma pessoa que planejava marcar o mal no mundo todo e nada lhe saciava, afinal.
Mandona e sedutora, sem pensar no ritmo pessoal e social de cada semelhante, pregava seu rastro 'sobrenatural' e raivoso em todos que lhe permitiam...
Não possibilitava raciocínio e logo logo punha a sua miraculosa maneira de seduzir.
Pirateava a todos, no pormenor que rastejassem sobre si.
Pobre miserável, se prostrou por mentir!
O mal não prevalece jamais...

Rosélia Bezerra, 59 anos, Brasil

Acaba de publicar um livro, seja aqui

Desafio nº 46 – substantivos, adjectivos e verbos começando por P, M, S ou R

Que pintor!

Roberta pediu ao pintor que pintasse a parede e ainda sua porta.
O pintor molhou o pincel, sacudindo pingos pela sala.
Até a maçaneta da porta, simples, mas moderna, restou toda respingada.
Roberta perguntou ao pintor se podia ser mais responsável.
Poderoso se sentia ele com o pincel. Mas pouca ou rara pintura mostrava satisfatória.
Roberta raivosa pegou o material e deu um pontapé porta afora no pintor.
Ruminava de raiva, o pintor porco.
Mas, Roberta, ria.

Chica, Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil



Desafio nº 46 – substantivos, adjectivos e verbos começando por P, M, S ou R

29 junho 2013

Desafio nº 46

Estamos há muito tempo sem quebra-cabeças com letras, não é verdade?

Inventei aqui um que vos vai dar algum trabalho (trabalho divertido, claro, de pôr a língua ao canto da boca e avançar).

Que me dizem de escrever uma história em 77 palavras em que todos os verbos, substantivos e adjectivos comecem por P, M, S ou R?

Não é difícil, não, eu já experimentei, ficou assim:

Preparara-se para sofrer, pensou, e agora restava-lhe isso mesmo, sofrer. Pensara que, matando as saudades com persistência, elas saíssem da sua mente, mas não. Ali permaneciam, pontuais, relembrando os momentos passados perto do sossego pateta dos sonhos realizados, mas sem proveito. Agora, sabia que, revolvendo mágoas e resistindo aos recuos, só poderia sofrer. Pessoa por metade, sentia-se assim. E só parou quando, reabrindo o peito ao sorriso, sentiu-se pertencendo ao mar. Partiu em paz, sem mais suplícios.
Margarida Fonseca Santos, 52 anos, Lisboa
Desafio nº 46 – substantivos, adjectivos e verbos começando sempre por P, M, S ou R
EXEMPLOS
OUVIR

EXEMPLOS - desafio nº 46

Roberta pediu ao pintor que pintasse a parede e ainda sua porta.
O pintor molhou o pincel, sacudindo pingos pela sala.
Até a maçaneta da porta, simples, mas moderna, restou toda respingada.
Roberta perguntou ao pintor se podia ser mais responsável.
Poderoso se sentia ele com o pincel. Mas pouca ou rara pintura mostrava satisfatória.
Roberta raivosa pegou o material e deu um pontapé porta afora no pintor.
Ruminava de raiva, o pintor porco.
Mas, Roberta, ria.
Chica, Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil

Num rastejante período, passei por uma pessoa que planejava marcar o mal no mundo todo e nada lhe saciava, afinal.
Mandona e sedutora, sem pensar no ritmo pessoal e social de cada semelhante, pregava seu rastro 'sobrenatural' e raivoso em todos que lhe permitiam...
Não possibilitava raciocínio e logo logo punha a sua miraculosa maneira de seduzir.
Pirateava a todos, no pormenor que rastejassem sobre si.
Pobre miserável, se prostrou por mentir!
O mal não prevalece jamais...
Rosélia Bezerra, 59 anos, Brasil

Sonho
Seria sonho ou realidade? Parecia...
Puro sabor, puro prazer
Manuel sonhava... que maravilha!

Um sonho que só ele podia sonhar...
Mundo maravilhoso, muito misterioso...
Só ele sabia o que pensar.

Pular, saltar, mirar o mar
De muitos reflexos...
O pequeno Mário e a menina Maria
Pulavam com ele...

Mas ele saltava... em sonho!
E, ao primeiro raiar do Sol reluzente,
Manuel separa-se dele, sabendo sempre que posteriormente
Saltará e para sempre pulará no
Mundo dos Miúdos!
Rickyoescritor, 11 anos, Pedroso, VNG

Depois de passear muito por Paraty, percorrer roças, saborear risoto de pitanga e robalo com manteiga, o maestro rondou os pontos de paragem dos profissionais da música e meteu-se na roda de samba.
De regresso à pousada, preparou as malas, pegou na sanfona e rumou para o porto.
O mestre preparava o saveiro, que por um mês seria a morada de Marcelo.
Quando partiu para o mar, sentia-se verdadeiramente rijo por perambular por rotas perigosas completamente sozinho.
Quita Miguel, 53 anos, Cascais

CORAÇÃO AVENTUREIRO
Naquele momento, na praia, debaixo de um sol radioso, sonhava…
Como seria maravilhoso partir mar dentro, qual marinheiro de seiscentos, à procura de outros mares, outras paragens, outras pessoas.
Talvez até surgissem monstros marinhos, piratas temíveis ou sereias manhosas, mas tudo seria melhor do que aquela mediocridade. 
Precisava de mudar a monotonia, preencher os momentos sombrios, resolver aquela solidão.
Sentou-se no penedo mais próximo, respirou a maresia e releu o seu romance preferido “Piratas”.
Sentiu-se em paz.
Palmira Martins, 57 anos, V. N. de Gaia

O salto
Saltar é a melhor solução! Pensava ele, enquanto a mulher sorria sorrateiramente. Sobre o som mudo dos santos, sabia que seria rei. Podia ser que aquele mundano sentimento não precisasse de mais sol. Mata-o e serás solto! Que rico pesar, pensou. Não seria a pior solução; seria apenas a mais prudente. Saltar e soltá-lo, por entre os muros daquela sala, seria como renovar o sentimento, da pior maneira possível. Não poderia permitir-se sentir-se preso mais uma vez.
Carolina Cordeiro, 34 anos, Ponta Delgada, São Miguel, Açores +

A brincar…
Mariana ralhou:
– Não podes ser assim minha menina! Senta-te e sossega!
Como ripostando, a matrafona de pano, recostada na parede, resvalou subitamente.
– Parece-me que não sabes a resposta. Posso repetir a pergunta: somando seis mais seis o que mostra o resultado?
A pantomina prosseguiu pela manhã, com sorte para as meninas de pano perfiladas ao pé de si. O sucesso das suas pupilas preocupava-a! Mal sabia o seu rumo: reviver, seriamente, essas memórias remotas, sendo, realmente, professora.
Maria José Castro, 53 anos, Azeitão

Sabedoria
O poeta perseguia há semanas a resolução de um soneto, parado na penúltima rima.
Com as mãos suadas de muito recortar palavras no papel, resolveu sair à rua para pensar no remate sublime que aquele monumento pedia e o sentimento lhe recusava.
No parque, respirou pureza, sentiu o sol no rosto, mergulhou os pés na relva.
E então um pássaro poisou na sua sombra e soprou-lhe a sabedoria que procurava: o mundo repara a paixão que morre.
Rita Bertrand, 41 anos, Lisboa

Sentir saudade significa sentir privação. Portanto se for para perecer dela,
que pelo menos seja simetrizada. Só assim a saudade não será apenas sofrimento.
Representará partilha.
Martiriza-me sentir saudade. Magoa. Muito. Porém, não senti-la, representa
rotina, miséria de patavina, privação de momentos memoráveis. Então, como
permanecer?
Assim mesmo: senti-la de vez em quando. Poder matá-la. Sempre. Refazer a
realidade. Respirá-la. Renovar marcas profundas. Depois, prometer a morte:
"Mata-me as minhas saudades que eu prometo matar as tuas."
Vera Viegas, 29 anos, Lisboa

Começar de novo
Recusa a solução de pedir! Pois a morte deste país prescreve a cada momento!
Saldam-se promessas, resgatam-se sonhos e reinventam-se memórias, prorroga-se apenas e simplesmente a ruína que tantos previam.
Precisamos de mudar este mundo! Salvar os nossos sonhos! Local, onde perduram as nossas raízes, registo das nossas memórias. Precisamos de saltar o muro do saudosismo e com nossas próprias mãos, reparar o mal, sofrido!…
Reclamemos os nossos sonhos, partilhando-os com respeito. Procuremos seguros  nosso próspero recomeço!
Graça Pinto, 54 anos, Almada

Perdida na praia pergunto ao mar da tua presença saboreando o que de mais sábio mostrou.
Tremente de sede sorriu, na míngua de um refresco teu, saber provar do teu sabor.
Pintavas o medo com mais um pobre poema, seduzindo o sol com sabedoria mortal.
As planícies do mundo sedimentam as margens perfumadas de saudade rara,
E mostram o riso sensato de toda a magia deste mistério,
Não sossegues mais, enquanto o momento do sonho não morrer!
Alda Gonçalves, 46 anos, Porto

Poucas seriam as motivações que aquela sene senhora respigara do refúgio pleno, que a reabilitassem ou produzissem alguma panaceia, na severa situação da partida do pouso protector, permitindo mal resignada, que a passassem para uma misteriosa morada onde misteriosos parceiros se reuniam num sofrido, magoado silêncio.
Seco pranto a revelar-se Saara, seria o societário da postumeira semana.
O semovente que a parentela mobilizara para a sugar dali, roncava com sofreguidão...
Então, majestática, sonhava:  'Saudade também será presença.'
Elisabeth Oliveira Janeiro, 68 anos, Lisboa

Sonho e Realidade
Sonho e Realidade
O sol, preenche todos os segundos, dos meus maravilhosos minutos.
Mora dentro do meu peito!
O mar, maravilhoso!
Em cada remada, sinto-me rejuvenescer... sou solista, em sonata, relacionada
com o movimento dos remos.
Palerma, penso por momentos... mas logo sei, que sonho, e pode ser maravilhoso
sonhar.
O facto de me sentir realizada, saudável, persiste na manutenção dos meus sonhos.
Sei, penso eu, manter-me assim.
Permaneço rindo e sonhando.
Morro no sonho, a sorrir!
Arminda Canteiro Jorge Montez, 75 anos, Queluz

Pedro
– Para, Pedro!
Para Pedro, parar soava como perder. "Mais rápido, Pedro! Mais rápido!", rosnava o professor. "P-E-R-D-E-D-O-R", soletravam.
– Para, Pedro!
Mais que perder, parar soava como um sarro. "Menino raro, esse Pedro", riam-se as meninas repetindo os pais. Pedro paspalho, Pedro mané, Pedro sardento: um milhão de Pedros num só Pedro.
– Para, Pedro! 
Mas Pedro seguiu com mãos sedentas. Saia rasgada, pescoço roxo... as pernas sucumbiram facilmente. E Pedro uma, duas, três vezes.
Menino raro esse Pedro.
André Foltran, 17 anos, São José do Rio Preto, Brasil

PENSOU SER MAIS RAZOÁVEL PERMANECER SÓ. RECOLHEU-SE EM SI MESMA. PARTIU PARA A RAZÃO. PAROU DE SENTIR. SENTIR ERA SOFRIMENTO.
RIDICULAMENTE, SAUDAVA-SE POR SE PREPARAR PARA A SOLIDÃO. SAUDADES? PROVAVELMENTE, SIM. PASSARIA A SABÊ-LO.
PROMETERA NÃO REGRESSAR AO PONTO DE PARTIDA.
RUGAS, PESAR, MEDOS, MÁGOA, MARCAS, PASSADO.
PERDAS POR SUPERAR, METAS POR SUPLANTAR, SINS SEM SINCERIDADE.
MAIS QUE A MEDIDA. PRESTES A REBENTAR.
MAS, NO MOMENTO, SENTIA A SEGURANÇA PARA SE MOVER, SALTAR, PROGREDIR, SAIR. SEM RISCOS.
Violeta Seixas, 46 anos

O Mundo de Maria
Para Maria, não passava de uma perfeita palermice não poder mostrar ao mundo o que sentia por Pedro – um senhor. Um miúdo. Um puto reguila. Mas o seu senhor, o seu miúdo, o seu puto reguila. E Maria sentia-o no seu peito, nos seus pulmões e no sítio de onde saem os sentimentos. Sorria sempre que o recordava. Morria sempre que não o sentia. E, naquele momento, o mundo parou. Maria sorriu e Pedro sentiu. Para sempre.
André Pereira, 28 anos, Lisboa

Perigo... O perigo projetava Sara numa rua sinuosa e rígida, que rapidamente esta perfazia como um puma redondo de raiva e pujança... Esta mirabolante manifestação que se refugiava num reboliço peregrino e perene nas mãos, sentiu-se em Sara, quando esta mirou um rato de proporções mórbidas, que a mumificou, impávida, e a motivou a uma subida singular da rua... Esta postura parca em sensatez, minimizou-se apenas minutos posteriores e racionou a relação restritiva do Perigo com Sara...
Afonso Caldeira, Alcanena

Pedro remava sem parar. O senhor Melo marcara-lhe no mapa o percurso sinuoso. Seguiu, então, perto da margem do rio.
Como seria possível recuar ao passado?
Já nos meandros da recôndita mata, o rapaz procurava um rochedo saliente no penedo. A solução surgira, enfim. Pedro meteu na sacola a mezinha que lhe permitiria salvar um parente. Mandou uma mensagem ao primo e assim recolheu os mirtilos que, juntamente com as pétalas pretas, resultariam numa verdadeira poção mágica.
Vera Vitorino, 41 anos, Tomar

Parece maluqueira, mas será realidade? Pois, sim!
Numa manhã, sem qualquer ruído, um rato sentado numa pedra a relaxar.
De repente, sentiu uma palmadinha no pescoço. Seria o macaco Serafim?
– Não reparaste que estava a relaxar? – perguntou o rato.
– Não percebi! Desculpa! – respondeu o macaco.
Tu nem sabes o que se passou a seguir.
Os dois mamíferos sentaram-se e... relaxaram.
Mas uma salamandra resolveu massacrar os pobres animais.
Pensam que se passou o mesmo? Pois pensam mal!
Carolina Mariano, 12 anos, Venda do Pinheiro

Voltar a ser a mesma
Tento reamar-vos sem vos magoar. Não consigo, ser a mesma sendo outra.
Poderei ser uma pessoa sorridente ou risonha, novamente?! Reatar o passado, no mesmo momento em que se modificou?! Será possível? Persisto sempre e sempre morre o projecto, mas surgindo a re-esperança de retornar a ser a Paula. Sonho com isso, principalmente por vós - regressar à mãe "poderosa" e "sábia"; sempre renovada e magnífica. Aquela a quem de maneira sorrateira suspiram as pessoas ao seu redor.
Isabel Pinto, Setúbal 

Naquele lugar perdido, os sinais refletiam a rotina – o relógio moderno do mosteiro não parava de ressoar, as mulheres sussurravam, os rapazes e raparigas saltitavam na margem do ribeiro, salpicando as pedras mornas, secas.
O mestre-de-obras reparava o soalho da mansão do padre. De repente, surpreende-se com um pedaço de memória perdida no soalho.
O majestoso relógio do mosteiro sem o ponteiro dos minutos permanecia sereno, relembrando as memórias perdidas do povo, do sagrado e do profano.
Fátima Veríssimo, 52 anos, Seixal

RETALHOS
Será que ao tentar rabiscar algumas palavras num papel
Muito ou pouco profundas…
Mais ou menos misteriosas…
Numa manta de retalhos modesta
Serei uma mulher que preocupa os poetas

Na minha memória percorrem pensamentos, preocupações e peripécias
Alguns momentos do passado e do presente
Pesadelos ou promessas
Preservar a paz e manter o rumo

Relembrar silenciosamente, sem medo, mentiras ou polémica
As mensagens e os momentos maravilhosos
Procurar respostas, reflectir até à salvação
Sonhar é a solução…
Cristina Lameiras, 48 anos, Casal Cambra

Rebanhos 
Mandei uma resposta simples por SMS. Preferi manter alguma surpresa. Sabia que muitas palavras podiam motivar perturbações sem sentido.
Ao penetrar no salão, todos sustiveram o respirar: queriam muito saber o que eu possuía para revelar ao mundo. Mantive o silêncio e, assim, persisti no suspense; senti prazer naquela maldade de reter as pessoas numa situação de pressão maior. Finalmente, proferi:
- Senhoras e senhores, preparem os pescoços. O sangue será o nosso sucesso.
E o programa principiou.
Bau Pires, 50 anos, Porto

Reflexão na ribeira
Percorro a margem com passos pequenos...
Paro e saboreio a sensação
de poder sonhar.
Perder na memória
misteriosos momentos do passado...
Por milésimas de segundo,
pedaços de um minuto,
resgato o sentimento
que penosamente sofri.
Prefiro respirar profundamente
e soterrar para sempre
pensamentos sufocantes.

Sim, prossigo pela margem da ribeira
Sorrindo para o sol
que sinto pairando sobre o meu rosto.
Peço perdão silenciosamente...
Na mente, só permanecem as palavras;
Substantivos selecionados que parecem reflexão.
Ou não!
Elsa Rodrigues, 41 anos, Lisboa

Passo a passo
O sol medra as plantas. Sabido!
E o que será que me medra? Sim, qual será o meu sol? O que pode produzir mecanicamente, renovação e prosperidade em mim? Não sei precisar. Pensá-lo parece até uma mialgia permanente que menospreza o poder de reação e de raciocínio. E sabê-lo previamente, seria no mínimo, monótono!. Melhor mesmo não pensar e prosseguir!  Persistindo, sentindo e vivendo sem medo dos recuos. São muitos os meus sóis. E revelam-se a cada passo.
Sandra Évora, 40 anos, Sto. António dos Cavaleiros +

Música de pássaros
Pássaros de plumagem de penas roxas, sobrevoavam perto do mar, e, sôfregos de peixe, respingavam salpicos de maresia em redor da praia.
Ao pôr-do-sol, sorrateiramente subiam pelo porto sem marés revoltas, rumando rumo ao sul.
Pela manhã passavam o rio, e sabiam o sofrimento real do marinheiro e a solidão que do suplício surgia, pareciam perdidos, soltavam-se e simulavam sons musicais, que pareciam risos maravilhosos, partiam e sorriam.
Surgiam musas suplicando rogando e pedindo silêncio e paz
Maria Silvéria dos Mártires, 67 anos, Lisboa

Pássaros no rio
Seduzidos pelo rio
De pulo em pulo saltitando
Passarinhos, num rodopio
A sua sede matando

Papoilas e rosmaninho
Revestem margens da ria
Rosados e pequenos peixinhos
Que sobre a ria surgia

Paisagem rara de searas
Como rios de prata sedosas
Pendem madeixas de saudade
São sonhos de searas majestosas
As rosas perdidas da minha mocidade

Pássaros rumam para sul
Com o rio em murmurinho
Partem de terras paul
E o marinheiro no rio remando
Sublime meu passarinho
Maria Silvéria dos Mártires, 67 anos, Lisboa

Petra parou,
sabendo que parar seria morrer.
Sentou-se sobre uma pedra ainda morna e sibilou
um rasto quase surdo de um poema por rever.
O sol reconsiderou a sua retirada
e a pedra permaneceu morna e pasmada.
Sem pressa, sem raiva, sem sofrer,
Petra poisou as mãos suadas no rosto marcado,
sentiu o sabor a mar da saliva seca,
sorriu e reescreveu sem rima, o passado,
mas numa sintaxe perfeita
de palavras suaves,
e de sílabas soltas…
Célia Costa, 41 anos, Malveira, Mafra

Partir ficando
Sentia-se um pateta. Stefan sempre pensou ser razoável. Mas agora sentia-se pesaroso! Sempre podia recolher-se nos seus sonhos, ou seriam pesadelos? Preparou-se para partir. Metade regressava, outra metade permaneceria.
Por momentos, a razão partiu e partia o seu sossego, regressavam à sua mente recordações. Relembrou os sonhos por realizar, as metas realizadas. Sabia... o quê? Sofrer? Morrer de saudades? Pertencia tudo ao passado. Agora mesmo sentia mágoa, medo, saudade. E, sem sorrir, partiu com vontade de permanecer.
Carla Silva, 39 anos, Barbacena, Elvas

Rápida e próxima do mar, Sílvia mergulhou, entre pedras, procurando peixes multicolores. Os peixes saltitantes rodopiaram sem pressa, com mestria, ao redor de Sílvia. O sorriso perplexo da menina reinava na pureza do mar. Memorizou o momento paradisíaco: raias e  rodovalhos; sabás e salmões; moreias e mantas; peixes-lua e peixes-trombeta...
Regressou com a maré e com a maré o sol rumou até à montanha onde Morfeu o recebeu.
O mar segredou: Menina, regressa sempre!
Sílvia murmurou-lhe: Sempre!
Arménia Madail, 56 anos, Celorico de Basto

Sobre o adverso do caminho
Passar através do relógio, perceber que ele roda, sem parar, resultava mais sofrer.
Revisara com padecimento cada pequeno memorar.
Por que as palavras não rimavam com a realidade?
Sentia o sabor, perfumes, risos, cada som dos melhores momentos, perpetuados.
Sofrer resulta em mais maturidade, mas soçobrara-se em sombras, permeadas de solidão.
Muitas saudades...
Porém, segue o rio para o mar.
Se o rumo não pode mudar,
Mesmo sensível, preencher o seguir de persistência,
Moroso e suave semear... 
Roseane Ferreira, Macapá, Amapá, Brasil

Partiram, pois não surgira outra possível solução. Resistir seria pôr muitas pessoas em risco. Mal podiam respirar naquele pandemónio. Parecia surreal aquele momento… Roubados, martirizados, sofridos, procuravam manter o pouco que restava. Pertenciam àquele sítio, mas morrer pela pátria, reconhecidamente perdida, seria sensato? A morte não resgataria a paz… partiriam magoados, sucumbidos ao poder maléfico da raiva de povos que se perdiam na passadeira do rancor. Melhor seria morrer procurando paz do que manterem-se em paz prisioneiros…
Amélia Meireles, 62 anos, Ponta Delgada

SUBI ao banco.
MATEI a lagarta, SEGUIU-SE a barata,
que por SER mentirosa, PROCUROU
METER-SE debaixo da cama.
Então, barata, SABES que te MATO,
vá lá, SAI daí. ROGO-TE.
PROMETO, que te MATO com carinho.
SAIS a bem, ou SAIS a mal?
SUFOCO-TE com o sapato,
depois logo SABERÁS,
como é MORRER às minhas mãos.
Ainda não SABES, mas a tua amiga
lagarta já não te SAFA.
PROMETO-TE uma morte SUAVE.
sem sofrimento, mas lenta.
Maldita barata.
Natalina Marques, 57 anos, Palmela

O pirata
Com preta perna de pau
pressuroso sulcava os maçadores mares,
entre risos sombrios de seco rum.

Percorria, solitário, os sete mares
procurando os sonhados paraísos remotos
e preciosas riquezas profundamente submersas.

Retumbava, sonolento, um ronco som
rasgando, como pungente punhal, o sossego
de salgada melodia saudosa.

Com recurvada mão, rapinava, malandro,
as soçobrantes sombras nos peitos refugiados
e com rápido remo partia novamente.

Nunca se lhe mostrou a riqueza procurada
nem sequer o sorriso
de uma sereia.
Mónica Marcos Celestino, 43 anos, Escuela Oficial de Idiomas, Salamanca (Espanha)

Esta manhã, Patrícia saiu para o parque.
O sol resplandecente revelou-se uma surpresa magnífica... a meteorologia previra raios.
Assim, resolveu passear; precisava de meditar sobre problemas profissionais e o parque parecia realmente um retiro relaxante.
Surgira repentinamente a possibilidade de migrar para Marvão e, sendo professora de matemática, poderia reintegrar o sistema pedagógico.
Mas, renunciar ao sítio das raízes, Monchique... seria penoso!
Talvez realizando um piquenique à sombra dos plátanos surja a resposta para as perguntas pessoais.
Susana Sofia Miranda Santos, 38 anos, Porto

São Martinho
Montado, Martinho, moço soldado, seguia solitário a sua missão, sob saraiva, na sombria manhã do mês dos Santos. Subitamente, socorro soou! Num silvado, um mendigo molhado, sozinho, sedento, sem mantimento, a sucumbir, suplicava, miseravelmente, migalhas e um sobretudo!
O militar meigo, sempre solidário, mostrou metade do seu manto para salvar o modesto senhor maltratado. Mistério! Milagre! Um sol maravilhoso surgiu! A meteorologia mudou!
Modéstia, sensibilidade, solidariedade, mérito se misturaram! Martinho, supremo modelo, a santidade mereceu!
Bruno Melo (10ºD), Fábio Sousa (11ºB), António Xavier (3D3D), sob orientação da Professora Natália Oliveira

Arrumação

Andei à procura delas pela casa; não as encontrava. A mania de nunca prestar atenção onde deixo as coisas, dava nisto. Precisava de as encontrar.
Encontrei a alegria, esquecida, a um canto; senti compaixão. Depois, quase que tropecei na desilusão; estúpido, não reparei que era minha companheira. Acordei a esperança e a felicidade; ficaram  surpreendidas, dormiam há muito.
Meti-as num saco, no frigorífico, para melhores dias. Só a tristeza ficou cá fora; era a dona da casa.

Bau Pires, 50 anos, Porto


Deixaste-me o medo

Deixaste-me o medo. De começar, de acabar, de viver. É uma garra sufocante que prende a esperança bem lá no fundo. Deixaste também a melancolia dos dias passados em êxtase, com o coração na boca, sempre a palpitar. Lamento a decepção.  Sentia-me fraca, tolhida pelas escolhas. Não vivo triste. Depuro as minhas emoções todos os dias. Bem vês, tudo o que escrevo é para ti. Para que sintas o amor que ainda arde cá dentro,  para sempre.

Alexandra Rafael, 35 anos, Albufeira
  
Desafio nº 45 (sem as emoções por ordem alfabética)


28 junho 2013

Programa Rádio Sim nº 35 – 28 Junho 2013

OUVIR o programa! 

No site da Rádio Sim

(Esta história é livre)
Descobri tudo.
Vi como se enterravam as tuas raízes na carne dela. A seiva que te alimentava, ensopando-nos os lençóis, deixou-me sem pinga de sangue. Arderam-me os olhos na tua cegueira, ainda assim, olhas-me como se nunca tivesses visto uma estátua. Asseguro-te que acabou.
Tiraste-me a vontade e o medo. Tiraste-me os gritos e os segredos. Foi tudo diluído no sangue. Deixa-me, não me tires da chuva. Não agora, que finalmente aprendi por que choram certas árvores.

Gonçalo Amadeu
(não resisto a partilhar convosco que o Gonçalo é autor de Escrito Sem Cuidados, Ed. Colibri, que adorei, e músico)