31 julho 2013

Obviamente é óbvio

– Vais à praia?
– Óbvio que sim! Já viste este sol?!
– Com quem?
– Com a maralha é óbvio! Queres vir?
– Não posso, trabalho...
– Óbvio! Tás sempre a trabalhar.
– A vida é assim, temos que ser coerentes e responsáveis.
– É óbvio, para ti trabalho é primordial. Curte a vida, pá!
– Também sei divertir-me! E depois ides ao fuselhas?
– Obviamente! A vida é breve, temos que a saborear enquanto jovens!
– Como um tique, é óbvio que um dia te passará…


Alda Gonçalves, 46 anos, Porto

 Desafio nº 48 – diálogo em que uma personagem tem um tique de linguagem

Uma palavra amiga

Ouvi dizer que estás a passar por sítios mal frequentados, sem querer atrapalhar, nem ralhar, procurei.
Sempre nunca esquecer, que somos amigas, e connosco tudo se torna simples. Encontramo-nos à esquina, para te contar e pedir-te: Sê paciente, não dês ouvidos às más línguas, tu sabes que há pessoas que gostam de dizer mal de tudo e dizem frases que magoam, acontece e para te consolar tens sempre o meu ombro amigo, para te apoiar e aconselhar.

Maria Silvéria dos Mártires, 67, anos Lisboa


Desafio nº 34 – grelha de 16 palavras obrigatórias

Ou seja...

– Ou seja, podes ir andando que já te apanho na curva do caminho.
– Mas eu espero por ti.
– Se calhar era melhor ires, ou seja, não esperes que eu ainda tenho umas coisas a fazer e prefiro fazê-las com calma, ou seja, vai e não te rales que eu  já te alcanço.
– Tudo bem, mas depois não te queixes... é que eu posso decidir não te esperar, ou seja (risos), ponho-me na alheta se te demoras demais.

Elisabeth Oliveira Janeiro, 68 anos, Lisboa


 Desafio nº 48 – diálogo em que uma personagem tem um tique de linguagem

Programa Rádio Sim nº 58 – 31 Julho 2013

OUVIR o programa! 
No site da Rádio Sim

Desafio nº 34 - 16 palavras obrigatórias

Acontece que, sempre que procuramos, nos esquecemos de ser pacientes. Atrapalha procurar por cima do ombro, em sítios, pequenas frases, ao virar da esquina.
Connosco é mais simples consolar do que passar o tempo a aconselhar quem quer desilusões contar. Ralhar nunca, nem pensar!
Nem pensar em ralhar, discutir ou argumentar; mais vale só ficar. Ficar a pensar, a relaxar, a rir a descontrair… Só ficar e deixar-se ir, no momento, na magia, no deleite, no envolvimento!

Sandra Neves Lourenço, Lisboa


Ouve lá!

– Que raiva, ouve lá! Vou demitir-me! O ambiente aqui  está de cortar à faca, ouve lá!
– És louco!
– Não aguento, ouve lá!
– Acalma-te!
– Não digas ceninhas, ouve lá, só para me convenceres do contrário...
– Nada disso!
– “Nadadiço” é um pato, ouve lá! Tu farias o mesmo que eu sei, ouve lá!
– Enganaste. Sou responsável, sabes?
– Que amigo és tu, ouve lá? Sermões a esta hora não, ouve lá!
–  Ouve lá isto...
–  Pára de me imitar, ouve lá!

Paula Ângelo, 48 anos, Portela / Lisboa

 Desafio nº 48 – diálogo em que uma personagem tem um tique de linguagem

Ups, não deu...

Duas melgas, muito amigas, decidiram ir até ao Parque de Campismo.
Uma era gordinha, a outra, escanzelada.
Chegaram, acomodaram-se numa agulha dum pinheiro e dormiram.
Havia ainda muito sol!
Assim que começou a escurecer, diz a magra: 
– Acorda, temos que procurar alimento!
– Ontem, eu bebi muito sangue, estou bem.
– Mas eu nem tanto, ripostou a outra!
Foram! Viram uma família muito apetitosa e dirigiram para lá o seu voo
picado.
Surpresa! Não conseguiram picar, todos usavam repelente!

Arminda Montez, 75 anos,  Queluz


Desafio nº 24duas melgas à conversa, uma gorda e outra escanzelada

Prontos, foi assim...

Prontos, pá, eu não queria, mas que queres? Este foi demais... prontos, pá...
E prontos, pá, assim, sem modo, lancei-me a escrever, prontos, pá, sem saber até onde chego, mas prontos, pá, desafio é desafio e a pessoa, prontos, pá, não resiste.
Não resiste e, prontos, pá, desata a escrever, a procurar sentido... sentidos... E, prontos, pá, mais coisa menos coisa, chegamos lá sem saber como... É uma questão de fé, de confiança, sei lá!... Prontos, pá.

Maria Manuel Borges, 51 anos, Lisboa


 Desafio nº 48 – diálogo em que uma personagem tem um tique de linguagem

Interessante

– Sim, vi isso e achei muito interessante.
– Ah, sim sem dúvida, deveras interessante.
– O novo livro dele é muito interessante.
– E o filme, também achaste interessante?
– Sim, achei, sem dúvida.
– Era interessante convidá-lo para uma conferência.
– Oh, sim, o editor deve achar interessante.
– Convidamos uns críticos literários interessantes, uns escritores interessantes e algumas pessoas interessantes. Todos vão achar interessante, sem dúvida.
– Às vezes, andamos à procura de ideias interessantes e nada e agora foi logo. Interessante, não?

Rosário Oliveira, 47 anos, Leiria


Desafio nº 48 – diálogo em que uma personagem tem um tique de linguagem

Minha última viagem

Gosto muito de viajar, tá?
Quem  me conhece sabe que tenho um blog só de vigem, tá?
Entendo que tem gente que viaja para lugares mais sofisticados, tá? Mas eu posto mesmo assim os meus lugares e lugarejos por onde passo, tá?
Na iminência de estar dividindo o pouco que ando por ai, tá? 
Tá certo assim?
Prometo continuar, tá bem?
Vou desbravando horizontes e partilhando com vocês, tá? 
Se não gostarem, espero que me compreendam, tá?

Rosélia Bezerra, 59 anos, Brasil

Desafio nº 48 – diálogo em que uma personagem tem um tique de linguagem

O sol, e os meninos

O sol surgiu no horizonte, enchendo de luz e cor o universo.
O céu, sem nuvens, límpido e sereno, e os meninos livres dos deveres do colégio, correm e sorriem, pedindo que brinquem com eles.
É divertido ver como eles se sentem felizes. Chegou o crepúsculo, o céu escureceu, os jovens querem ver o brilho imenso cor do sol, vindo do céu, e pedem que Deus lhes dê um pouco de tempo querem ser homens do futuro.

Maria Silvéria dos Mártires, 67 anos, Lisboa


Desafio nº 37 – uma história sem usar a letra A

30 julho 2013

E prontos, está dito!

– Epá, não sei. É assim, tipo, não sei. Sente-se e prontos.
– Percebi tudo!
– Opá, é tipo, prontos, quer dizer, não te sei dizer. Prontos, é assim: a coisa começou a desenrolar bem, tás a ver. Prontos, depois, epá, foi só deixar a noite correr e prontos, as palavras soltaram-se e prontos – disse o que tinha a dizer.
– E disseste o quê, já agora?
– Epá, sei lá, meu. Prontos, tás a ver, foram muitas coisas.
– E dizes-te escritor.

Carolina Cordeiro, 34 anos, Ponta Delgada, São Miguel, Açores  


Desafio nº 48 – diálogo em que uma personagem tem um tique de linguagem

Programa Rádio Sim nº 57 – 30 Julho 2013

OUVIR o programa! 
No site da Rádio Sim


Desafio nº 6 - início e fim obrigatório

De dia, viam se pouco...
Como Lua e Sol...
Quando ela chegava, ele não estava,
quando ele chegava, ela dormia!
Desencontrados!
- Malditas horas extraordinárias! - lamentava-se ele.
- Nunca posso estar com ela!
Até que começou a pensar...
- Uma greve talvez possa resultar! Não, uma Revolução!
E no dia seguinte acordou com os colegas o plano, que todos aceitaram!
           E no outro dia já todos se tinham preparado à frente da junta de freguesia...
Acabou por resultar!
Quem diria...

Rickyoescritor, 11 anos, Pedroso, VNG



EXEMPLOS - desafio nº 48

Meu...
– Ora bem, meu, eu... A sério, meu! Eu não tenho coragem para lhe dizer, meu!
– Não te preocupes, só tens de estar relaxado! Vais conseguir! Acredita!
– Não sei, meu...
E aqui está, eu também não sei uma coisa: do que é que eles falam?
– Eu já te disse que vai tudo correr bem, Ricardo!
Então, ele levanta-se e diz:
– Obrigado, Joãozinho, mas, perder o caderno, não é nada normal!
E eu que julgava que era algo amoroso...
Rickyoescritor, 11 anos, Pedroso, VNG

ENCONTRO...
– Olá, tia, estás bem? Caramba, há quanto tempo!?
– Vou andando, mas tenho tido uns contratempos.
– Caramba, isso é que é pior!
– O teu pai?
– Anda por aí, caramba, nunca pára em casa!
– E a tua mãe?
– Está no trabalho, caramba, não sabe fazer mais nada...
– No teu emprego como está tudo?
– Caramba, está bem, mas, caramba, tive que falar com o supervisor, porque, caramba, as coisas estavam muito descontroladas.
Nesta altura da conversa, eu já estava esclarecida!
Arminda Montez, 75 anos, Queluz

Pedro e Luiza estavam namorando. A família dela, interessada em conhecer um pouco mais de perto o rapaz. 
– Pedro, hoje à noite aparece lá em casa pra jantar connosco.
– Óbvio que não!
– Não vais, mas por quê?
– Óbvio! Tenho vergonha, entendes?
– Não gostas de mim?
 Óbvio! que sim, mas não quero, entendes?
– E papai e mamãe?
– É óbvio, hão de entender! Entendes?
– Pedro, não vais nem hoje, NUNCA! 
– Óbvio que sim!, entendes?
Deu as costas e saiu!
Chica, Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil

– O chefe basou.
A sério?
– Sim.
A sério, não acho normal. Ainda agora chegou. Não achas estranho, a sério?
– Chefe é chefe! Não tem de dar satisfações.
– Achas? A sério!? E bulir, não? A sério
– Não refiles, Yuri.
– É que, a sério, não acho mesmo nada normal. Uma pessoa aqui a dar o litro, e aquele nem aquece o lugar. A sério… só visto!
– Por favor, pára! A sério, que o «a sério» me tira do sério."
Quita Miguel, 53 anos, Cascais

– Epá, não sei. É assim, tipo, não sei. Sente-se e prontos.
– Percebi tudo!
– Opá, é tipo, prontos, quer dizer, não te sei dizer. Prontos, é assim: a coisa começou a desenrolar bem, tás a ver. Prontos, depois, epá, foi só deixar a noite correr e prontos, as palavras soltaram-se e prontos – disse o que tinha a dizer.
– E disseste o quê, já agora?
– Epá, sei lá, meu. Prontos, tás a ver, foram muitas coisas.
– E dizes-te escritor.
Carolina Cordeiro, 34 anos, Ponta Delgada, São Miguel, Açores

Minha última viagem
Gosto muito de viajar, tá?
Quem me conhece sabe que tenho um blog só de vigem, tá?
Entendo que tem gente que viaja para lugares mais sofisticados, tá? Mas eu posto mesmo assim os meus lugares e lugarejos por onde passo, tá?
Na iminência de estar dividindo o pouco que ando por ai, tá? 
Tá certo assim?
Prometo continuar, tá bem?
Vou desbravando horizontes e partilhando com vocês, tá? 
Se não gostarem, espero que me compreendam, tá?
Rosélia Bezerra, 59 anos, Brasil

 Ó menina, venha cá ver isto! 
Ela olha, fingindo-se interessada.
– Do melhor, ó menina!
– Pois, acredito...
– Quer levar alguma peça, ó menina?
– Não, obrigada...
– Mas, ó menina, olhe que aqui é de qualidade!
– Isto está mau…
– Mas olhe que isto é bom e barato, ó menina! De aproveitar!
– Não duvido…
A rapariga afasta-se, aliviada.
 Ó menino, olhe-me aqui estas peças!
– Não há dinheiro!...
Incrível como não têm dinheiro mas não falham uma feira!”, pensou, consigo, a mulher.
Pedro Caetano Carvalho, 16 anos, Beja

Prontos, pá, eu não queria, mas que queres? Este foi demais... prontos, pá...
E prontos, pá, assim, sem modo, lancei-me a escrever, prontos, pá, sem saber até onde chego, mas prontos, pá, desafio é desafio e a pessoa, prontos, pá, não resiste.
Não resiste e, prontos, pá, desata a escrever, a procurar sentido... sentidos... E, prontos, pá, mais coisa menos coisa, chegamos lá sem saber como... É uma questão de fé, de confiança, sei lá!... Prontos, pá.
Maria Manuel Borges, 51 anos, Lisboa

Interessante
– Sim, vi isso e achei muito interessante.
– Ah, sim sem dúvida, deveras interessante.
– O novo livro dele é muito interessante.
– E o filme, também achaste interessante?
– Sim, achei, sem dúvida.
– Era interessante convidá-lo para uma conferência.
– Oh, sim, o editor deve achar interessante.
– Convidamos uns críticos literários interessantes, uns escritores interessantes e algumas pessoas interessantes. Todos vão achar interessante, sem dúvida.
– Às vezes, andamos à procura de ideias interessantes e nada e agora foi logo. Interessante, não?
Rosário Oliveira, 47 anos, Leiria

– Que raiva, ouve lá! Vou demitir-me! O ambiente aqui está de cortar à faca, ouve lá!
– És louco!
– Não aguento, ouve lá!
– Acalma-te!
– Não digas ceninhas, ouve lá, só para me convenceres do contrário...
– Nada disso!
– “Nadadiço” é um pato, ouve lá! Tu farias o mesmo que eu sei, ouve lá!
– Enganaste. Sou responsável, sabes?
– Que amigo és tu, ouve lá? Sermões a esta hora não, ouve lá!
– Ouve lá isto...
– Pára de me imitar, ouve lá!
Paula Ângelo, 48 anos, Portela / Lisboa

Obviamente é óbvio
– Vais à praia?
– Óbvio que sim! Já viste este sol?!
– Com quem?
– Com a maralha é óbvio! Queres vir?
– Não posso, trabalho...
– Óbvio! Tás sempre a trabalhar.
– A vida é assim, temos que ser coerentes e responsáveis.
– É óbvio, para ti trabalho é primordial. Curte a vida, pá!
– Também sei divertir-me! E depois ides ao fuselhas?
– Obviamente! A vida é breve, temos que a saborear enquanto jovens!
– Como um tique, é óbvio que um dia te passará…
Alda Gonçalves, 46 anos, Porto

– Ou seja, podes ir andando que já te apanho na curva do caminho.
– Mas eu espero por ti.
– Se calhar era melhor ires, ou seja, não esperes que eu ainda tenho umas coisas a fazer e prefiro fazê-las com calma, ou seja, vai e não te rales que eu já te alcanço.
– Tudo bem, mas depois não te queixes... é que eu posso decidir não te esperar, ou seja (risos), ponho-me na alheta se te demoras demais.
Elisabeth Oliveira Janeiro, 68 anos, Lisboa

– D’alguma maneira, o problema ficou resolvido!
– É inacreditável! Como conseguiram resolver aquele imbróglio?
– Como todos os problemas, d’alguma maneira, o são.
– Mas de que maneira?
– Surgiu um novo ainda maior, d’alguma maneira.
– Outro!?
– Sim, d’alguma maneira, foi engolido pelo novo problema.
– Então, não foi resolvido! Arranjou companhia!
– Nada disso! Quando uma gota se junta à água, perde a sua individualidade, deixa de existir, d’alguma maneira, passa a fazer parte de um todo.
– Porém, continua a ser água.
Maria Garrido, 47 anos, Caminha, Viana do Castelo.

Prova Oral
– E sobre Shakespeare, o que sabe?
– Tipo, “ser ou não ser, eis a questão”? É como me sinto, tipo confusa, deve ser daquele período do mês, tipo benfica-a-jogar-em-casa, logo eu, sempre tão despachada, tipo Speedy Gonzalez, mas a vida tem coisas bué chatas (tipo pais bué mal-encarados, desemprego, divórcio, falta de tempo para nós) que nos fazem arrancar cabelos e dizer palavrões e, pior ainda, nos fazem pensar naquela figura triste, tipo caveira de foice na mão…
Ana Paula Oliveira, 52 anos, S. João da Madeira

Horário? Zero!
– Eu sou sincero, isto de ver colegas, excelentes professores, com horário zero, consome-me.
Toma! A quem o dizes. Eu tenho quarenta anos e estou nesse barco. Sou efetiva há dezasseis… nesta escola!
– Tu não me digas isso. Eu sou sincero, já não aguento ouvir mais casos destes.
Toma… acordaste agora? – Joana cuspiu as palavras enraivecida. – Ainda não percebeste que professor não é bicho de conta?
– Até tenho vontade de me reformar… e olha que eu sou sincero!
Maria José Castro, 53 anos, Azeitão
(O “Toma” é usado no Seixal como uma interjeição que exprime admiração ou reforça/intensifica o sentido da frase. Infelizmente, não conheço a origem deste tique de linguagem que os Seixalenses tão bem identificam, com certeza.)

– Não foi nada do que pensava, entendes? Sempre julguei que não correria bem, entendes?
– Sim, mas ‘tás a ver, esse teu receio era patético, ‘tás a ver, tinhas era que experimentar.
– Eu sei, entendes, mas cada vez que pensava nisso até parecia que me faltava o ar, entendes?
– Compreendo, ‘tás a ver, mas agora que já experimentaste, ‘tás a ver, o que achaste?
– Um alívio, entendes? Tudo isso não passava dum disparate, entendes? Adorei andar de avião.
Graça Pinto, 54 anos, Almada

ENCONTROS
Num bar dois amigos encontram-se:
– Zé, há que tempos pá!
– João! Sabes? O trabalho, ‘tás a ver?
– Diz-me cá, pá!
– É a vida, ‘tás a ver!
– Mas conta, que tens feito, pá?
– Olha, casei, tenho dois filhos, ‘tás a ver?
– Eu tenho um mas divorciei-me, pá!
– É mesmo?! Tens mais liberdade, ‘tás a ver?
– Nem por isso, a ex, a pensão, complicado, pá!
– É pior a sogra, ‘tás a ver?
– É mesmo, pá!
– Nem ‘tás a ver!
Carla Silva, 39 anos, Barbacena, Évora

Agora mesmo
– O senhor sabe-me dizer se já passou o autocarro trinta e sete?
– Passou, sim senhora, agora mesmo.
– Agora mesmo! Mas agora mesmo cheguei eu, e não vi o autocarro
– Pois é verdade, minha senhora, foi agora mesmo!
– Mas agora mesmo, eu já estou aqui há tempo e o senhor continua a dizer agora mesmo.
– Pois é verdade, minha senhora, é agora mesmo que vamos os dois para o autocarro, porque ele acaba de chegar, faço-lhe companhia.
– Obrigada!...
Maria Silvéria dos Mártires, 67 anos, Lisboa

Cenas
– Estás a ver a cena? No momento em que a ia beijar, surgiu uma gaivota e eu, ao recuar, malhei da varanda.
– Que cena, meu!
– Felizmente que o toldo da mercearia me amparou. Acabei caído no meio da fruta.
– Ouve lá, que cena, meu!
– Não acabou. Quando me levantei, veio a merceeira, agarrou-me com força e... beijou-me.
– Altamente, que cena, meu!
– O problema é que o realizador mandou repetir tudo, disse que a cena estava uma porcaria.
Bau Pires, 50 anos, Porto

– Foi brutal esta viagem às Maurícias!
– Bem... Conta tudo...
– Foi mesmo brutal...
– Mas deve ter saído cara.
– Até não, a Agência fez-me um desconto brutal!
– Então e o hotel?
– Brutal! Simplesmente brutal!
– Mas como era? Os quartos? A comida? A piscina?
– Tudo brutal! Não há palavras... brutal mesmo!
– Ah! Ainda bem (?!!?).
– Então e tu? O jantar com a Ana? Quero saber tudo!
– Sem palavras: foi brutal!
– A sério? Mas e ela? É fixe?
– A sério...é brutal!
– ???!!!
– ???!!!
Vera Viegas, 29 anos, Lisboa

– Disseste que o ias fazer.
Obviamente que sei o que disse! Queria tanto não te desiludir que pensei que já tinha feito. Pronto.
– Mas sabes que não fizeste. Sabes que estás a adiar o inevitável.
ObviamenteProntoenfim. Esse tom não ajuda nada.
– Precisas de apoio?
Obviamente que não. Enfim… é óbvio que com essa atitude não chegamos a lado nenhum.
– Só quero que cumpras o que prometes.
– Sim, obviamenteEnfim, já vou lavar a loiça, pronto.
Clara, 37 anos, Agualva, Sintra

– Ei mano, isto é bué de difícil!
– O quê, mano? Este desafio?! Não acho, mano. Experimenta fazer sem contar as palavras e no fim cortas as que estão a mais.
– A sério, mano? É assim que fazes? Vou experimentar! Parece bué de fácil!
Pouco depois:
– Feito, mano. Foi bué de fácil! Mas tenho noventa palavras.
– Agora é fácil, mano! Corta todos os bués e todos os manos e ficas com 77 palavras.
– Ok, mano. Bué de fixe.
Palmira Martins, 57 anos, Vila Nova de Gaia

Tudo o que é demais…
Estás surdo, amor?… Ah, é um avião a passar, amor… E, agora, já me ouves, amor?... A tua cabeça é de borracha, amor! Então eu aguardo, amor, pela tua chamada…
Sim, amor, sou eu… mas que grande mentiroso me saíste, amor!!... Repete: “béu-béu-béu, béu-béu, béu-béu, amor”… Foi-se? E, amor, como tu ficaste!!!… Estás ainda aí, amor? Cala-me esse rádio infernal, amor!!! Venho só lembrar-te, amor, que amanhã temos a nossa primeira conferência por causa do divórcio, amor!!!!!
Graça Samora, 39 anos, Massamá, Qeluz

 
Um casal tinha um filho. Era difícil educá-lo. 
– Pedrinho, faz os deveres escolares.
– Fogo! Ainda agora cheguei! Fogo, nem liguei o computador hoje!
– Pedrinho, vem jantar.
– Ó mãe, fogo, o pai nem chegou. Fogo, que pressa! 
– Joaquim, este garoto, que maneira de falar.
– Deixa lá, são fases.
– Filho, senta-te aqui, fala com o pai. 
– Fogo, vou pró quintal jogar à bola. Fogo!
– Fogo! Fogo!
O pai deu razão à mulher... 
Entretanto avolumava-se o fumo vindo do quintal.
Rosélia Palminha, 65 anos, Pinhal Novo

Falar para o boneco 
– Estou a falar contigo e tu népias....
– O quê? O que disseste?
– Epa, não ligas népias ao que eu digo...
– Népias, que é isso?
– Népias, nadica de nada...
– Ham?
– Epa, népias é nada, nickles.
– E o que eu tenho a ver com isso?
– É como te digo: tu não me ligas népias, não ouves népias, não respondes népias, pareço um teatro de um só ator.
– Afinal o que é que tu queres?
– Epa, eu não quero népias...!
Elsa Rodrigues, 41 anos, Lisboa

Olá, pá!
– Olá, João!
– Oi, pá!
– Como correm as coisas: trabalho, casa…?
– Pá, em casa é sempre o mesmo. A mulher, pá, já não me liga nenhuma, pá; procuro fora de casa, pá, não sei se entendes, pá… O trabalho, pá, é aguentar 8 horas, para ganhar o pão e mais umas coisitas, pá. E tu? Pá?!
– Eu continuo no mesmo escritório de advocacia. Casei. A vida não me corre mal.
– Bem, adeus.
– Gostei, pá, de te ver, pá.
Isabel Pinto, Setúbal

– Tipo, achas que devo comprar aquela caneta?
– Sim.
– É que estou tipo indecisa, porque tipo, eu já tenho uma tipo igual, mas sem tampa.
– Então não sei…
– É que tipo, eu queria, mas valerá tipo a pena?
– Falaste com os teus pais?
– Não, mas tipo, eu queria tanto! Eu gosto de ter as coisas tipo perfeitas, arranjadinhas.
– Compra lá, antes que percamos a hora de almoço! Acho que os teus pais não se zangam, se for hoje…
Carolina Longle, 11 anos, Odivelas

– Olá, pá.
– Como estás, pá?
– Sim, estou bem, pá, e contigo, pá?
– Estou bem, pá, o que fazes, pá?
– A falar contigo, pá!
– Havia trabalhos de casa, pá?
– Sei lá, pá!
– Eu também lá sei, pá!
– Então quem sabe, pá?
– Lá sei, pá!
– Não me apetece fazer nada, pá!
– Eh, pá, e a mim!
– ‘Tá ali um boneco, pá!
– Sabias que estamos a falar para o boneco, pá?!
– Agora tenho de ir embora, pá!
– Eu também, pá.
Leonor, 10 anos, Colégio Dinis de Melo, Amor, prof Rosário Oliveira

Hoje a Paula disse-me:
– Olha lá, não foste à festa?
– Fui- respondi-lhe – talvez não me viste.
– Pois, talvez – disse-me. – Olha lá, gostaste da festa?
– Sim, foi boa – disse.
– Boa! – clamou –, 'boa' é pouco, foi de mais.
– É
– É, pois foi – disse-lhe –, mas fui embora cedo.
– Olha lá – perguntou-me –, os teus pais não de deixam ficar até tarde?
– Não – lamentei –, estou de castigo, tive más notas.
– Ok – disse-me. – Olha lá, aquele é o teu pai?
– Sim, adeus.
Rui Guerreiro, 15 anos, Amor, Colégio Dinis de Melo, prof. Rosário Oliveira

Rommy, a famosa
– Diga-nos Rommy, o que a leva a querer ser famosa?
– Prontos, eu quero muito ser famosa, porque, prontos, tenho boa figura, gosto muito de moda e essas coisas.
– Mas o que tem feito nesse sentido?
– Prontos, eu até já entrei num Reality Show, prontos penso que já dei um grande passo, para ser famosa.
– Rommy, diga-nos o que gosta mais de fazer?
– Prontos, sei lá, praia? É isso, prontos, adoro fazer praia.
Diz o repórter:
– Prontos, terminamos.
Isabel Branco, 53 anos, Charneca da Caparica

– Tipo outra coisa melhor.
– Não sei
– Tipo não 'tás a ver tipo.
– Talvez.
– Tipo achou a coisa engraçada.
– Ah!
– Pois! Tipo agora é que é!
– Então?
– Tipo eu não deixei tipo.
– Como?
– Tipo não sei se te diga.
– Hum!
– Tipo eu disse, tens cá uma “biblioteca”, tipo!
– ‘Tou a ver.
– Tipo, eu… ia dizer, tipo desorientei-me e não é que me pus-me toda doida aos beijos, tipo.
– Ao tipo?
– Tipo sim, ‘tás a ver tipo ao tipo. 
Constantino Mendes Alves, 56 anos, Leiria

Tipo já ouviste falar da rapariga nova aqui do bairro?
Tipo nem sabia que tinha chegado uma rapariga nova ao bairro.
Tipo ela e tipo nova.
Não e??????
Não ela deve ter tipo 20 anos.
Lol, a sério tipo?
Ya, tipo… usa tipo roupas bué coloridas tipo, e tipo usa uns sapatos de tipo salto alto, mas tipo bué altos.
Onde é que tua viste?
Tipo na rua!
Tipo tenho que a conhecer.
Tipo, adeus tipo…
João Ribeiro e João Pimpão, Escola Secundária Vergílio Ferreira

– Maria, vem cá! Está tipo a nevar.
– Estás a mentir, não é?
– Não, estou tipo a falar a sério!
– Está bem, estou a ir, Joana.
Maria vai para a sala a correr mas, quando se aproxima da janela, repara que está sol.
– Mentiste-me! Disseste que estava a nevar!
– Tipo, eu não te menti! Está a nevar mas tipo não é lá fora.
– Então, onde é que está a nevar?
– Está a nevar, mas é tipo na televisão.
Carolina Strecht e João Vicente, Escola Secundária Vergílio Ferreira

– Tipo, já ouviste falar da rapariga nova aqui no bairro?
– Não! Nem sabia que tinha chegado uma rapariga nova ao bairro.
– Tipo, ela não é tipo nova….
– Não é?!
– Não, ela tipo já deve ter tipo pr’aí uns 20 anos…
– Lol a sério?
– Ya tipo…. Usa tipo roupas bué tipo coloridas, e tipo usa uns sapatos de tipo salto alto, mas tipo bué altos!
– Onde é que tu a viste?
– Tipo, era a tua irmã, tipo…
– Ok…
Margarida Assunção e Joana Ferreira, Escola Secundária Vergílio Ferreira

Amor com amor se paga
– Querida, tudo bem, onde estás?
– Estou no metro.
– No metro? Tudo bem, onde sais?
– Saio no Marquês.
– No Marquês, tudo bem, vou ter contigo.
– Não vale a pena, não posso.
– Gostava tanto de estar contigo, tudo bem, tenho saudades!
– Não posso, já te disse, tenho muito que fazer.
– Não tens tempo, tudo bem, fica para a próxima.
– Ai! Escorreguei agora na escada rolante. Acho que parti um braço! Socorro!
– Partiste, tudo bem, chama o 112, tudo bem.
Isabel Sousa, 63 anos, Lisboa.

Just yes
– Pois sim, falo que sim, nunca sei negar.
– Como assim?
– Só digo que sim, mania de sim, tudo é sim, termina assim.
– Impossível! A vida é feita de sins e nãos às vezes (muitas), mais nãos.
– Menos para mim, que sei negar dizendo assim: Eu recuso agradecido, nunca ou quem sabe ou rejeito...
– (que cara maluco)...
– Há? O que disse?
– Nada não.
– Pois sim...
– Seria um TOC ou um cacoete?
– Isso é difícil explicar
– Sei...
– Pode acreditar!
Roseane Ferreira, Macapá, Amapá, Brasil

– Sabes, pá, aquela casa onde morava?

– Óbvio, sim, sei.

– Imagina, pá, afinal o senhorio falsificava os recibos, pá!

– Óbvio, e tu…

– Óbvio como? Já sabias, pá?

– Não, óbvio, ficaste em maus lençóis, óbvio.

– Pá, ficamos os dois, pá…

– Óbvio, foi complicado?

– Mas para ti, pá, é óbvio eu pagar, pá, pela trafulhice dele?

– Óbvio que não.

– Pensei, pá, que estavas do lado dele.

– Óbvio… sobrou para ti?

– Claro, pá!

– Era óbvio. Já resolveste? Óbvio?

– Claro, pá! Óbvio.


Amélia Meireles, 62 anos, Ponta Delgada