30 junho 2015

Programa Rádio Sim 542 – 30 Junho 2015

OUVIR o programa! 

No site da Rádio Sim


Tu vê lá, filha...
“Quem não arrisca não petisca” era o seu lema! Sempre que dispunha de uma oportunidade, não a perdia! Marta era uma pessoa muito extrovertida, enérgica e nada a demovia dos seus intentos. Queria aprender, fazer novas experiências, conhecer novos amigos, viajar! No entanto, a mãe por vezes lembrava-lhe se não estaria a exagerar!
– Tudo tem um limite – dizia-lhe. – Não faças nada de que possas um dia vir a arrepender-te! Olha que “mais vale prevenir do que remediar”!

Emília Lopes de Matos Vieira Simões, 63 anos, Mem-Martins (Algueirão)
Mais textos aqui:  http://ailime-sinais.blogspot.pt/
Desafio nº 90 – com provérbios contraditórios

EXEMPLOS - desafio nº 93

E esta hein?! Escrever sem saber de tal...  
serei capaz de tamanha façanha?
Irra... difícil é de certeza. Tragédia tamanha!
Meti-me nela... Hei-de sair da mesma!!
É verdade?!... A "manha"! Fazer dela minha aliada,
e fica a escrita "arranjada".
77 palavras... nem precisa de grande matéria...
mas sem as tais "letras"... fica a batalha mais séria.
Perdê-la? Nem pensar... e se certa "Sra. Padeira, 
ganha Fama, pelas afamadas "pazadas"...
Ganharei fama a servir-me... de tantas letras 
baralhadas!!! 
Maria Cabral – Azeitão

A enfermeira
Maria nascera na cidade de Santa Maria, fez carreira na enfermagem.
Ainda recém na área, dedica a zelar de gente da terceira idade, assim sentia feliz pela vida. Mas nem sempre na vida têm-se dias livres de tristezas. Ela aprendera na primeira partida sem vinda da velha amiga Francisca na manhã de Abril, elas eram afinadas de fazer lembrar mãe e filha. Desde esta data se dedica à medicina, para saber destes males, capazes de maltratar velhices.
António Tomaz Reis, 59anos, Salvador, Bahia

Apenas “a, e, i
Ai ai... A Margarida me dana! Inventa essas tiradas crazy, pede escrita sem certas letras necessárias. Ai resta ir atrás. Desafiada, enxerida bem a minha cara.

Sem chances de fazer rima
Certas letras me privam
Mas tentar entrar em clima
Abraçar a ideia, a mente reativam!

Versar assim é legal
Cabeça vai a pensar
E chegam letras e tal
Para faltas abafar!

Margarida minha amiga
Fã de ti sempre serei
Mas ideia me diga?
Mente brilhante, sei!
Roseane Ferreira, Macapá, Amapá, Brasil

Caminhada
– Se calhar a minha amiga sabe mais... – Se arranjasse maneira de lhe arrancar a verdade, pensava.
– A menina é bem destemida, mas necessita de ter paciência – disse a anciã. – Siga, pedale pela vida sem pressas. Sinta as entranhas da terra e lembre-se de permitir às pernas a merecida paragem.
– Deverei deixar a minha alma ditar a caminhada? – demandei.
Devagar, a anciã meneia a cabeça e esclarece:
– Aprenda a atendê-la a cada amanhecer, e a vida far-se-á leve.
Quita Miguel, 55 anos, Cascais

Ena pá! Mas sem crise! A gente há de ser capaz e escrever à Margarida as setenta e sete palavras, bem encadeadas e em linhas direitas. A narrativa é mais difícil… as ideias espalham-se em palavras largas e amplas, mas vazias e sem essência. Antes alegres e ligeiras, neste instante pesadas e tristes. Instala-se a desesperança e fica-se sem nada para dar, sem nada para receber! Margarida, é dramática esta minha estreia em “Setenta e sete palavras”.
Maria João Batalha, 48 anos, Lourinhã

E, ainda para atazanar mais, a Margarida está ciente desta tremenda maldade… Se essas letras nem prestassem para nada, estariam à mercê da escrita? Maldade, Margarida! Escrever desta maneira é reinventar a escrita! Já avisei! As defendentes da escrita clássica ainda arranjam briga. Excelente seria avançar para a patente. Patentear esta inédita escrita é a maneira de precaver alhadas. É pertinente avançar rapidamente para a saída desta grande arenga. Patenteia-se já esta habilidade inventada pela Margarida? Alinham?
Amélia Meireles, 62 anos, Ponta Delgada

 Escrita sem “mentes”
 – Ah, ela é fantástica, francamente! E incentiva, lindamente, a escrita criativa.
– Sim, é verdade, a típica rapariga da era de sessenta. Mas tem ideias… de deixar baralhada a mente mais brilhante. E nessa frase retirava as palavras “francamente” e “lindamente”, fica a saber! Detesta esses “mentes” em demasia.
As amigas falavam assim, cheias de vivacidade, riam e escreviam palavras e mais palavras até transmitirem a ideia pretendida acerca da amizade. A tarefa era difícil mas seria terminada.
Maria José Castro, 55 anos, Azeitão

Viajar sempre
Viajar é animar!
Ver além das aparências. 

Tirar melindres, 
Males da alma, 
Raízes enredadas, 
 Sem piedade, 
Entram na vida da gente.

Encantar!
Nesta instância, alegrar! 

Fazer esfriar cabeça, 
Desapegar
Desacelerar a alma 
Inebriar! 

Afagar mente 
Desmentir fadiga insistente, 
Despistadamente.

Diferenciar sempre. 
Ainda insistem dilemas 
Aparentes e persistentes.

Andar devagar e apreciar 
Vista linda e extasiante 
Sempre bem feliz.

Acatar paisagem, 
Pensar lentamente,
Desacelerar!

Mais além: andar via terra, mar e ar,
É verdejar ambiente deprimente
Bem contente! 
Rosélia Bezerra, 60 anos, Rio de Janeiro, Brasil

Benjamim Clementine
Estes dias é-me difícil descrever a chama imensa que exalta em mim este saber. Saber que há artistas capazes de arrepiar, de apagar e rasgar com a actual trivialidade existente nesta arte – a arte de cantar, de ritmar. Benjamim Clementine. Este inglês, de apenas 26 primaveras, de ascendência ganesa, capaz da façanha de petrificar. Parece vir das entranhas essa capacidade de enternecer, de viciar. 
Partilhar é inevitável! E acreditem, 77 palavras bastam. Na verdade, bastaria esta: MAGIA.
Vera Viegas, 31 anos, Penela da Beira

Oh, uh, que desafio
Escrever, deixar pra trás letrinhas? 
Difícil, mas afinal se desafiam, vale tentar, disse a si mesma. 
Inicia a clicar, deixa vir. 
Mas ainda em setenta e sete palavras? 
Arre! Nada aparece na cabeça. 
Mas vai! 
Fica a escrever, sem desistir! Sempre lhe atraem tarefas assim! 
Esfrega a cabeça, para despertar ideias. Elas lhe faltam! 
De repente, passa as palavras já escritas rever. 
Faltam ainda tantas para as setenta e sete inteirar. 
Teima! 
Quer a tarefa terminar! 
Alcança! 
Chica, 66 anos Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil

Sentia-se tantas vezes incapaz em ladear a instabilidade da vida.
Pela manhã, ainda mal desperta, abria as janelas e respirava a brisa fresca brandamente, sem pressas. A paz era-lhe essencial. Havia de vencer a apatia paralisante das tardes de invernia passadas sem ver vivalma.
A cada dia magicava resignada, na viagem trilhada, sem avistar a claridade almejada.
Dirigia-se à estante repleta de lembranças. Abria a caixa vermelha e retirava a carta amarelecida, desgastada...Tanta esperança ali encerrada.
Emília Simões, 63 anos, Mem-Martins (Algueirão)
A brincar… Margarida!
Grande maçada, Margarida! Haja paciência para tragar estas manias literárias…
Mais me apetecia dizer: “lixem-se as 77 palavras!”. Mas, séria chatice… sente-se a sede de teclar, de vencer barreiras e acaba-se sempre a dizer amém às caprichices da Margarida.
A arrelia é já estar dependente destas manias. Mas, nada a fazer. Já fazem parte de mim, é até mentira se dissesse: “passava bem sem elas!”.
Assim, venham é mais, frescas e desafiantes! A gente fica bem feliz!
Domingos Correia, 57 anos, Amarante

A velhinha brinca... 
Lá vai a velhinha aqui, participar de mais esta brincadeira.
Brincadeira assim a faz pensar e tristezas parar...
Fica distraída, dia depressa passa...
Assim é fácil fazer a dieta, nada de parar para lambiscar... 
Margarida trata de fazer a cabeça da velhinha trabalhar.
Ela é especialista em letras tirar, mas
nada de desistir, email para Margarida deve enviar.
A velhinha se atrapalha, e às vezes, a letra indevida escapa. 
Margarida pacientemente alerta.
Velhinha brinca satisfeita.
É legal...
Verena Niederberger, 64 anos, Rio de Janeiro, Brazil

Ricardina, a menina palhaça
A mãe ralhava. A mãe ralhava talvez demais. Mas, Ricardina, capacitada e decidida, persistia nas alegres brincadeiras de menina endiabrada, até ser chamada de palhaça.
Certa tarde de Primavera, vinda da classe de dança, cheia das fantasias da baila, travessa e agitada, persistia na esgrima de dançarina experiente, mas, desastradamente, as pernas acabaram partidas.
A mãe, aflita, dizia-lhe em lágrimas:
– Filhinha, regressa rapidamente à mesma frenética e amada Ricardina!!!
– Minha mãe, jamais te massacres, depressa ficarei bem.
Elisabeth Oliveira Janeiro, 70 anos, Lisboa

Em plena avenida embati na filha da vizinha antiga. Revivi as lembranças. 
Ah! Gritara ela admirada. Aparentemente também estava cheia de alegria de me ver.
A Maria alterara-se de menina banal em beleza elegante.
Vai bem!... Já é casada. A cara irritada dela empalidecia. Antes eram amantes, e visivelmente para a Maria essa lembrança ainda faz abrir chagas velhas. As lágrimas amargas deslizavam pela face dela.
Sem pedir, abraçara-a estreitamente.
Ai!... Se calhar, ela ainda me ama.
Theo De Bakkere, 63 anos, Antuérpia, Bélgica

Fim de tarde 
A praia estava deserta.
Sentei-me na cadeira em cima da areia empapada e fria. 
Dei asas à liberdade, a imaginar, a viajar pela vida existente para lá deste areal sem fim. 
Desta brisa fresca, desta magia!
Deste sentir existente em mim!
As aves grasnavam, adivinhavam talvez tempestade. 
Tentei escrever, sem pensar, palavras à deriva, sem rima.
Faltava-me papel, caneta.
Limitei-me a escrever na areia apenas a palavra tristeza... 
E deixei secar a lágrima salgada na minha face. 
Rosélia Palminha - 67 anos Pinhal Novo

A necessidade de se sentir viva levara-a até ali. Sim, iria permanecer ali, nessa terra verdejante e casta até… mais tarde. Bastante mais tarde. Talvez dias, meses. Finalmente, ela era capaz de respirar plena e livremente, sem vacilar… aí, ela experimentava a veracidade de apenas Ser. De estar simplesmente. Sem pensar. E a Vida passava na mesma… mas mais bela, mais cristalina, mais real e legítima. Ah! Este deleite de permanecer abraçada à energia da Vida revitalizava-a!
Ana Paula Fernandes, 51 anos – Torres Vedras

Alexandre é grande
Alexandre andava a tentar deixar a bebida. Assim, parava na primeira taberna, virava-se para a entrada e dizia para si:
– Alexandre é grande, nada de beber!
Parava em mais tabernas, virava-se para a entrada, e dizia sempre:
– Alexandre é grande, nada de beber!
Já à beira de casa, parava na derradeira taberna e, de cara séria, presenteava-se:
– Alexandre é grande, merece beber!
E assim, finalmente, entrava, pedia a bebida e bebia feliz da vida e alma saciada.
Domingos Correia, 57 anos, Amarante

Traz esperança
Vem e traz para mim
Alecrim em cesta de verga
Alfazema e jasmim
Arranja também papel de seda
Fitas verdes, amarelas e encarnada
Para enfeitar a embalagem
E assim a cesta se erga
Na linda tarde de viagem
Para embelezar a estrada
E admirares a paisagem
Traz bananas, peras e maçã
Tangerina, melancia e laranja
Para festejar a manhã
E assim a alegria esbanja
Traz paz e traz esperança
E traz de ti a linda eterna criança.
Maria Silvéria dos Mártires, 69 anos, Lisboa

Esta é a fase ideal para parares a vida de carpideira. Chega! Desvia-te das barreiras, escapa-te das enrascadas. Desamarra as fragilidades, sai da neblina. Respira, finalmente. Lê devagar, medita, partilha. Enfeita-te e sai de casa. Rabisca na areia. Bebe chá, champanhe, se preferires. Reaprende a rir, a bater palmas.
A fase é fantástica para te sentires bem. Almeja apenas a liberdade. Sem pressas, vive cada dia. A vida é breve mas tem prazeres para te dar, lembra-te.
Ana Paula Oliveira, 54 anos, S. João da Madeira

As ideias estavam acanhadas. Evitavam aparecer. Receavam trazer agarradas a elas as tais letras.
As tais letras insistiam em aparecer até se sentirem desprezadas.
Sim, sentiram-se banidas, indignadas e partiram. Espertas, as tais letras!
– Esperem para entrar em cena amanhã – pedi-lhes.
– Amanhã?! – exclamaram indignadas as letras. – Amanhã será tarde demais.
– Há letras a desaparecer, Margarida! – gritei desesperada. – Permite a presença destas tristes letras nesta escrita. Certamente até ficará mais criativa.
– Estás enganada, relaxa – disse Margarida. – Elas regressam.
Isabel Bettencourt, 53 anos, Lisboa

Até que enfim que partiste e deixaste a casa vazia...
Até que enfim que zarpaste sem pensares em despedidas...
Até que enfim que te decidiste a ser feliz sem mim…
Até que enfim que esqueceste as minhas lágrimas, as minhas preces...
Até que enfim que me arrancaste as raras migalhas de alegria...
Até que enfim que me deixaste e me deste liberdade...
Assim, talvez renasça em mim a vida que jamais tive...
Apesar de ainda te AMAR!
Isabel Lopo, 69 anos, Comporta

É mesmo má, esta minha Margarida!
Rasga, talha, pilha letras sem piedade,
Sempre que lhe dá na telha!
Leva-me a decretar destemperada, disparatada tal medida,
De escrever sem as ter acessíveis, completas para a fantasia!
De nada adianta reclamar, ralhar até altercar,
Chamar as alçadas, as divindades celestes, mestres da palavra,
Assim, ela bate firme e insiste: “balizas, limites, raias, precisam-se”!
Perante tal premissa, já aceite e assente, cantarei a desejar, belas narrativas de vidas de embalar!
Deolinda Freitas, 41 anos, Chaves

Claridade
Avançava até à praia. Enterrava as pernas na areia e sentia a vida a enlaçá-la. Mal nascera, a mãe levara-a a essa terra feita de mar, abraçada à claridade. Ali sentia-se inteira, bem-vinda na lengalenga feliz das meninas em infindáveis brincadeiras. Vestidas de chita, rendas e bainhas abertas. Tranças a desfazerem-se de tantas alegrias. Levantaria a desejada casa da infância e teria as janelas sempre destrancadas, rasgadas à vida e à escrita, adiadas em décadas de espera.
Paula Coelho Pais, 54 anos, Lisboa

Que gata!
Ama a vida. Aprecia a claridade a entrar pela janela, a invadir a casa, a arrebitar as margaridas brancas, deitadas na jarra há dias.
A Chica também. Deita-se na carpete, estica-se e fica ali à espera da janta. Vida de gata.
A Filipa admira-a bastante. É linda, pretendida, passa a vida sem fazer nada, trata-se…
Mas, ela tem de trabalhar. Ficar sentada na sala triste a mexer em papéis, a analisar leis e estatísticas.
Era ser gata…
Margarida Leite, 46 anos, Cucujães

Sentei-me calada, secreta, para ver nascer a frase certa.
Pedra a pedra, letra a letra, assim era e se espelhava.
Sílaba a sílaba, palavra densa, inventada, chama dessa claridade.
Sibila, mítica feiticeira, hera das paredes, simples vegetal, perene manhã,
Escreve, descreve, prescreve, salta, grita e canta.
Alma etérea, imagem permanente na escrita criativa.
Risca, semeia, lança na terra, sem lágrimas nas faces da vida,
A brisa trará mais tarde a clara ideia da planície, apenas para mim.
Alda Gonçalves, 47 anos, Porto

Maltratada
A saia apertada prendia as pernas e as ancas da Mizé.
Ainda assim, caminhava sem hesitar, através das calçadas da capital, de sandálias altíssimas, sem cambalear, mas também sem saber se regressaria da mesma maneira.
A mala atravessada feria-lhe as mamas magras. Estava pesada, sim! Se carregava chaves, carteira, pente, iPAD, papel, caneta larga de tampa amarela, bíblia antiga e pastilhas!
Distraída, nem ligava.
Chegara e perdera a tenacidade. Recebera chapadas de Felipe. Amante realmente indecente, este.
Sandra Pilar Paulino, 44 anos, Barreiro

A carta
Já nada és para mim, repetia na minha cabeça.
Sentada na areia fria senti a brisa marinha a acariciar-me a pele e lembrei-me das tardes na praia.
Saíra para espairecer, essa era a ideia inicial, mas a tentativa fracassara.
Precisava afastar as lembranças mas afinal ali estavam elas, bem vivas na minha mente.
E para relembrar ainda mais a triste partida chegara a "desejada" carta. Estremeci.
Decidi deixá-la na mala. Temia lê-la...
A mensagem seria a esperada?
Carla Silva, 40 anos, Barbacena, Elvas

Andar de bicicleta
Animaram-me a aprender
A andar de bicicleta
E para me divertir
Lá me armei em atleta!

Parecia-me mentira,
Mas faria a tentativa
Para ver se” lá iria”
Tinha essa alternativa.

E eis-me tal criancinha,
A tentar bem, sem errar,
A trepar para tal selim,
Sem jamais me estatelar.

Passear e pedalar
Teve para mim magia,
Ver a praia, ver a areia
E sentir a maresia!

Ganhei asas verdadeiras,
Experimentei mais Liberdade
Tive várias alegrias
E ganhei Felicidade!
Maria do Céu Ferreira, 59 anos, Amarante

A lenda das três letrinhas
A letra A estava na casa animada mas chateada. Sem elas, as irmãs, nem cantar, nem escrever, nem falar! Sim, precisava delas. De repente aparece a letra E, e sempre espantada liga para a letra I. Vem já, apressa-te – disse-lhe. E ela, imensa, insiste sem reparar em nada. É fácil, basta imaginar, inventar, acreditar, ter fé. É incrível mas afinal chegaram a criar a lenda das três intrépidas letrinhas. Fizeram a escrita precisa e ficaram bem satisfeitas.
Jesús del Rey, 46 anos, Salamanca, Espanha

Memórias
A velha mendiga cantava e relembrava a vida passada. Dirigia-se às crianças atentas.
As lembranças da velha eram janelas abertas para elas. As palavras eram aves libertadas. Entravam nas crianças e se entrelaçavam na brevidade das leves existências. Magia estranha existia nas tintinantes sílabas: lembravam a maciez da seda nacarada e alegres bailares de brisas marítimas. Narrativas simples descreviam imprevistas caminhadas e estranhas fantasias.
Eram para a alma, as palavras! A ela se dirigiam e nela ficavam.
Isabel Sousa, 63 anos, Lisboa.

A cadelita atrevida
A menina catita treme e sempre fica aflita apenas de ver a cadelita atrevida a saltar demasiadas vezes para a estrada. Malandreca deita-se bem na parte central e fica encantada a fixar a menininha. Esta fita-a e chama: ‘Princesa sai daí; ainda és feita em crepe pelas carrinhas.’ E, zás!, vai também para lá, a fim de a salvar. A mãe, mal se apercebe, grita: ‘Anda cá depressa, Lili. Vem aí a desabrida carripana da padeira.’
Rosa Maria Pocinho dos Santos Alves, 52 anos, Coimbra

Decidi acabar esta farsa. Chega de ser calma e dizer sempre sim. Sabes disfarçar bem, mas já aprendi. Mereces ser infeliz e tens de entender bem, já te afastei da minha mente.
Se me desejas, aprende a parar de mentir. Sempre te dei chances, e estás sempre a errar.
Passas dias sem dar sinal, e estás sempre a inventar acerca de mim. És impaciente e, apesar de estares a tentar ser diferente, estás, sim, ainda mais intragável.
Sara Catarina Almeida Simões, 28 anos, Coimbra

Aparecia sempre pelas manhãs de sexta-feira. Bem de repente na janela da menina rica, bela e triste. Trazia alegria. Refletia paz. Transmitia energia. Era intrigante e delirante. Fada encantada? Fada idealizada? Fada bendita? Fada divertida? Será? Talvez. Jamais revelada entre dias e dias cada vez mais distantes. A vida da triste menina fez-se festa! Dança vibrante. Beleza permanente. Liberdade para se expressar. Cantiga de melhor ser! Fez viver e reviver esperanças... e era essa a grande magia!
Lia Noronha

Tinha de desaparecer, dali. Iria viajar.
Pensava ela, sentada em cima da mala de viagem.
Era da irmã mais velha, ela bem se lembrava dela.
Era a irmã mais amiga, genial e inteligente…
Talvez ela, também, esteja a pensar em si.
Lembrava-se, das brincadeiras, engraçadas dela.
E ria-se às gargalhadas das dela, também.
Sentia-se triste, a família estava dividida e separada,
mas deliciadamente lembrada, e, se as lembranças
fazem a gente feliz, serei feliz a vida inteira.
Natalina Marques, 56 anos, Palmela

Q10q 
Allá va. Nada más llegar al final de la sala, se detiene, pierde la energía de la pila. Cae al pie de la niña de calcetines naranja. Ladea la cabeza de lata; parece pensar. El Q10q sabe recargar sin electricidad. Enciende el led. La nariz casi verde, vibra. La niña entiende. Apaga la tele. Alegra a Q10q. Besa las cejas digitales. Q10q se espabila, habla: Me agrada tener amigas, ablandan mis metálicas ideas para manifestarme tan… sensible...
José Ignacio M.G. 57 años. Valencia de Alcántara. Cáceres. ESPANHA.

Andar aí, bater as asas, ser livre. É este lema para me levar até ti. Desejava ter-te para sempre na minha alma até a vida me arrancar de ti. Fica, fica apenas em mim.
Eram sete da manhã, lá estava, estranha e cansada. Assim me sentia naquele jardim.
Cair… e aprender a levantar… Tanta simplicidade através desta grande e brilhante janela. Amar é simples. Se te abrir a janela para entrares na minha vida, ficas inteiramente? Eternamente?
Carla Augusto, 48 anos, Alenquer

Naquela manhã de primavera havia tantas palavras para dizer: setenta e sete mais precisamente.
Amélia tinha a vantagem de saber bem as mais belas: preferia cantá-las!
Principiava sempre pela mais carismática das palavras: amizade!
Cantava de garganta plena e caprichava cada letra, cada silaba, cada palavra até dar às setenta e sete a alma de artista, tal era a arte da rima, sem as barregar.
Pela tardinha, mal a claridade se apagava, ela deitava-se a descansar: feliz!
Fernando Morgado, 60 anos, Porto

À prima Isabel! Lá anda a velejar. Alegre e satisfeita certamente. Planifica bem esta viagem, as primas deleitam-se. Sabe pela vida, exclama ela. Cá trabalha-se, escreve-se e desafia-se. A gente espraia-se em areais e diverte-se na mesma. Espera-se a prima, tarda da viagem, navega em mares verdejantes. Sem dar nas vistas, almeja manejar lemes e largar amarras. Regressa para a semana e há já agenda, nem imagina! A amizade é linda e recheia a vida das primas!
Teresa Alface, 49 anos, Vendas de Azeitão

Bia linda! Minha filha! Anda! Despacha-te! Desperta! Levanta-te! Vê pela janela! Mar, mar, mar… e nada mais… verde e cinza transparente. A brisa na pele. Vai iniciar-se a fantasia de nadar na praia, sentir a areia amarela incandescente e viajar, viajar sem fim. Traz apenas a mala e nela a saia e a sandália. A gata mia de ânsia. Traz a trela para a manter. Será a estrela mais brilhante a indicar a realidade das vivências realizadas. 
Fátima Fradique, 41 anos, Fundão

Desafiar a prima Isabel da avenida da praia era fácil, restava exemplificar também. Assim, pensei nas risadas, nas petiscanças, na praia, em afazeres e enlacei a prima Isabel Cristina. Baralham-se as primas? Jamais! A da avenida e a de Sesimbra, talvez da praia. Esta palavra liga as primas. A agenda mal espera e desespera pelas datas das idas à praia, à cidade. Vivas à vida, à alegria, à amizade alegram esta gente. Viva à amizade da vida.
Teresa Alface, 49 anos, Vendas de Azeitão

As setenta e sete palavras
A prever ligeiramente difícil esta escrita de exactamente setenta e sete palavras sem as tais letras, pedida pela minha amiga e prima Teresa Alface, mas inspirada para alcançar a meta pretendida. Já me fartei de pensar… sabem? Sem estas letras é bem mais difícil! Neste instante, parecem-me apenas existir as ditas letrinhas… Mantém a calma, Isabel!, pensei para mim, rapidamente e bem terminarás esta tarefa. Afinal, existem imensas palavras sem estas letras!
Ana Isabel Brito, 51 anos, Setúbal

A malta esteve a zarpar até chegar na esperada Hrvatska.
Belas paisagens, ilhas, praia, mar.
Para além da beleza a semana teve camaradagem, amizade, felicidade, partilha da alma, brincadeiras, danças, cantares, finais de plantel da pátria. 
Sim, finais! Mata, mata!
E saídas em grande! Permitiram festa em terra adversária. Andava-se radiante.
Para ser perfeita, faltava a brisa, essa malandra, sempre a retirar-se, e a evitar levantar as velas da Helena I, a casa da malta nesta semana.
(Nota: Hrvatska era o nome antigo da Croácia e o texto foi escrito na altura do jogo de futebol J)
Isabel Santos, 49 anos, Setúbal

Três amigas, sentadas nas cadeiras da sala, a tentar vencer a impensável tarefa de… escrever sem certas letras!
Cena marada!
Achas, Ana? 
Sim! Elas fazem falta, já me cansa este tema! Faz, Tita, se é fácil…
Calma, diz Becas, Tita, rima aí!

Ana chateada
É maçada
Masca pastilha
Caminha para a ilha!
Se estás cansada
Fica deitada
Se estás divertida
Vem rir à pazada!

Desatam a rir!
És mega parva, Tita! Graceja Ana.
Tarefa desenrascada! diz Tita.
Carla Augusto, 48 anos, Alenquer

Realmente! Sinceramente! Retirarem certas letras e pedirem para escrever sem elas? Inacreditável! Estive várias vezes para desistir. Cansada e perplexa. Desfeita! Aperreada! Ainda pensei se estava apta a escrever efetivamente mediante estas regras tremendas. Assaz difícil, é verdade! E lembrarem-se de tal exigência? Ainda se retirassem letras raras (“Ys”, “Ws”, “Ks”) mas estas? Tristeza abissal! Este dia está a levar-me à demência. E ainda faltam tantas palavras!... Tarefa altamente intrincada! E escapar dela? Precisava da saída! Rapidamente!!!...
Paula Coelho Pais, Lisboa, 55 anos

Antena avariada. Pintas a piscar na imagem sem parar. Haverá avaria mais rara? Nem cinema, nem revista para animar a casa! Mas talvez a prima Alzira arranje alternativa. Lá estava ela, na varanda a estender as camisas de Edgar. Rapaz afável, capaz de grandes e estranhas engenharias. Viviam nesta casa desde sempre. Casaram na aldeia em setenta e sete, disse-me a minha mãe Margarida. Descendentes, talvez as gatas. Crianças ali, jamais! Sempre tiveram alergia a esses seres.
Mariana Sanchez, 37 anos, Barcelona

Chegada à sala, pede café e senta-se a ler revistas velhas deixadas pela prima Margarida de Mafra. Chiça, a gaja da papelaria anda amancebada. Grande Manel, dá-lhe bem! Já teve dez amantes e a Alzira sem saber de nada. De manhã saem da casa dela e desaparecem sem deixar marca. A Chica da papelaria dança valsas na academia, Manel é presença diária. Agarram-se e celebram a vida na dança! Amanhã é dia e eles nem sabem esperar!
Filomena Mourinho, 43 anos, Serpa

A minha gata ladra
A gata Mimi amava ser ladra. Ela tirava saias, lápis, carteiras e capas. Esta gata jamais faria mal fisicamente a alguém. 
Na manhã de vinte e três de abril, ela tentava entrar em casa da rata Marta e, mal acabara de a assaltar, era sempre apanhada.
A rata fez-lhe ver a maldade do que fazia.
A gata era rica em sagacidade e percebera essa maldade e a amizade crescente pela rata.
Nesse dia primaveril, elas ficaram amigas.
João Loureiro, 6º ano, prof Ana Cristina Matias

Terça feira, à tarde, a Ana e a Isabel visitaram a tia Filipa em Gaia. Fizeram a viagem das férias delas. De bicicleta, viram a cidade inteira, nadaram na piscina, brincaram na relva, caminharam calmamente e deliciaram-se na casa “Cerejas e mel”. Ali, a delícia das delícias era a tarte cerejada. Fatia atrás de fatia, ficaram de barriga cheia!
Finalizada a viagem, regressaram a casa para se banharem na banheira e retirarem as vestimentas amarelas e verdes.
Raquel Candeias, 36 anos, Montijo

A Maria tem três casas de brincar. A mais feia é amarela, tem girafas pegadas nas vidraças das janelas e em cima dessas janelas, tem cerejas desenhadas. A mais engraçada tem diversas riscas castanhas, amarelas, beges e cinzentas, tem ainda três janelas e três chaminés gigantes. A mais bela é branca, tem três andares e várias imagens de animais. A amiga da Maria, a Matilde, aprecia bastante brincar às casinhas e passam as tardes inteiras a divertir-se.
Vera Saraiva, 37 anos, Redondo, Alentejo

A linda festa
Faltavam três dias para a festa da gata Mimi. A festa havia de se realizar na primeira semana de abril. Ela ia chamar a Clara, a Marisa, a Catarina, a Matilde e a Isabel.
A Mimi estava a pensar levar as amigas à praia, mas finalmente decidira levar as amigas a acampar na praia!
A Mimi ia até à avenida pedir à menina Beatriz seis pares de patins para a tal festa.
Ela amará a linda festa!
Rita Oliveira, 10 anos, Marco de Canaveses, prof Cristina Silva

A Matilde e as amigas
Às sete da manhã, a Matilde disse à mãe:
― Despacha-te, a Maria está à minha espera!
A mãe disse-lhe:
― Está bem!
A amiga chamada Inês também estava lá à espera da Matilde.
Chegaram e de repente a Maria e a Inês saltaram para cima dela.
E na casa da Maria dançaram e cantaram.
A mãe da Maria disse à Inês e à Matilde:
― Está aí a gatinha da Maria?
E a Inês e a Matilde exclamaram:
― Sim!
Íris Magalhães, 10 anos, Marco de Canaveses, prof Cristina Silva

Experiências
As experiências da sala de Ciências eram divertidas e também eram fixes.
Lá também havia a Medly. Ela era linda e simpática. Tinha lindas maneiras e amava andar de bicicleta.
Amanhã ela vai andar de skate. Vai lanchar salsichas, delícias e leite.
Também vai brincar à caçadinha. A mãe também ia brincar às vezes.
Cantava, dançava, amava rapazes.
Bebia, lia e era inteligente.
Passeava alegremente e viajava de carrinha para Espanha.
Berrava de alegria de estar lá!
Rogério Oliveira, 10 anos, Marco de Canaveses, prof Cristina Silva

A bicicleta
A menina ia a andar de bicicleta até a mãe a vir chamar para ir para casa.
Elas pensaram em lanchar e a mãe disse:
― Amanhã vais andar de skate e cantar.
Na sexta-feira elas iam à rampa de skates. A menina estava feliz. 
Ali havia elefantes de madeira, havia também jacarés e ela pensava mais pareciam reais!
A mãe disse: 
― Já chega de andar de skate. 
Elas tinham de ir jantar a casa da tia Palmira.
Tiago Tavares, 10 anos, Marco de Canaveses, prof Cristina Silva

Presente diferente
Às seis da tarde, as três gatinhas Mimi, Flafi e Bela estavam a beber chá.
Mimi teve a ideia de chamar a Clara, a BFF das três, para ficar em casa dela.
Clara aceitara.
― Amanhã vem às sete da tarde para preparar a festa.
― Aparecerei. Levarei presentes para as meninas. 
― Ah!
― Vais amar a minha prenda para ti!
― Verdade?
― Sim. É linda. Até amanhã!
"Será a minha brincadeira preferida?", pensava a Mimi.
Afinal eram latas de Whiskas!
Maria Beatriz Silva, 9 anos, Marco de Canaveses, prof Cristina Silva

Sem O nem U
Grande trabalheira se avizinha. A parada cresce a cada etapa. Esta parece difícil. E é. Claramente.
É escrever para ferver!! ☺ Nem sempre as ideias vêm ter à cabeça. Sem rimar, nem desenhar tentarei escrevinhar frases simpáticas e agradar à Margarida, para ela perceber a falha de sensatez nas palavras remetidas. Sem pinga de raiva nem dramas. Antes, amizade e beleza, apesar de limitadas pelas regras apresentadas.
Margarida, peça mais! Incrível a tarefa realizada pela Margarida. Parabéns!
José Jacinto Pereira Peres, 44 anos, Castro Verde

Canto das sereias
Entre as salgadas vagas bravias
as sereias afinavam as gargantas
para, matreiras, cantar tristes cantigas.

As cansadas barcas, enfeitiçadas,
paravam-se entre algas e peixes de prata
e deixavam as redes na mar.

Entre atraentes risadas atrapalhavam, malandras,
as brancas velas das barcaças
e até elas levavam-nas.

Arrastadas viam-se as marinheiras almas
pelas lastimosas baladas dessas raparigas
sentadas nas escarpadas pedras da baía.

Calaram as cristalinas palavras
à chegada da estrela da manhã
e a miragem se desfez.
Mónica Marcos Celestino, 43 anos, Escuela Oficial de Idiomas, Salamanca (Espanha)

De manhã, decidi ir passear a minha cadela para a praia. Ela ama saltar atrás das aves, escavar a areia e brincar a desfazer algas esverdeadas.
A beleza marítima encanta-me... é agradável ver a magnificência deste ambiente!
É indescritível ver a felicidade das crianças a brincar, sentir a areia fresca, ver vagas encarpadas, sentir a ventania agreste e aspirar a maresia salgada: devem ser dádivas da existência!
Realmente, a praia é a casa principal da minha vida!
Susana Sofia Miranda Santos, 37 anos, Porto

Difícil? Escrever sem ti e sem ti? Talvez. Mas…
Nem pensar! Mania de serem estrelas, vejam bem! Desapareçam lá!
(Zangadas, apagam-se.)
E assim nascem as belas palavras.  Cantam, encantam-me, encantam-se. Fazem magia. Lindas e lidas, até sem as meninas...
Bailam na certeza da delicadeza. Mexem-se, maravilhadas, atrevidas. Desenham imagens irrepetíveis nas cabeças baralhadas. Inventam estradas jamais vistas.  Divertem-se. Riem-se. Caminham para a Margarida, desatinadas, desafiadas e desfiadas, na dança imparável da narrativa das setenta e sete palavras!

Carla Augusto, 49 anos, Alenquer