31 julho 2016

Os olhos de Luana

Os olhos de Luana fugiam de todos. Miúda encorpada, de pele como chocolate macio, era tão criança quanto os outros, exceto nas dimensões desproporcionadas do corpo e no sofrimento que, apesar da idade, lhe daria licenciatura, se sofrer desse canudo. Não ouviu nem escreveu: olhou o céu durante 90 minutos; derramou lágrimas outro tanto tempo. No fim da aula, como sempre, ficou mendigando mimos. Levantou a camisola velha e deixou-me ver os vergões esculpidos nas suas costas.
Maria José Castro, 56 anos, Azeitão 

Desafio nº 109 – solidão no meio de gente

Pela Pátria

O seu filho e um outro soldado caíram pela Pátria no mesmo dia, e foram de urgência enterrados num canto isolado do cemitério, muito longe das suas terras natais. A mãe visitava cada quinze dias o sepulcro do filho falecido.
Nunca viu alguém visitando a cova do outro soldado, nem sequer no dia de finados quando todos comemoram os seus defuntos. Afligia-a muito: mesmo na morte existe a solidão, e deixou uma rosa na sua campa simples.
Theo De Bakkere, 63 anos, Antuérpia Bélgica

Desafio nº 109 – solidão no meio de gente

Carinho reconfortante

– Parabéns, Vovó! Feliz aniversário! – dizia a criança, enquanto se debruçava e a beijava na testa.
“Quem será? Porque me chama Vovó se nunca tive filhos, muito menos netos…”
Mas sabia-lhe tão bem aquela proximidade e aquele carinho. Sentia-se tão só!
– Ó Mafaldinha, essa senhora não é a Bivó! É a colega de quarto.
– Não faz mal, mamã! Já vou – e virando-se para a idosa: – também queres ser minha Bivó?
Claro que queria, gostava tanto que fosse verdade…
Palmira Martins, 60 anos, V. N. Gaia

Desafio nº 109 – solidão no meio de gente

Programa Rádio Sim - Julho 2016

Todos os programas, sempre com Helena Almeida e Inês Carneiro, no programa «Giras e Discos», nos links aqui em baixo.
(Rádio Sim)

Indicativo do Programa - Música e letra: Margarida Fonseca Santos; Arranjos, direcção musical, piano e voz: Francisco Cardoso - Histórias de Cantar CD - Conta Reconta

Horário na Rádio Sim - 17h45, todos os dias.


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30 julho 2016

EXEMPLOS - desafio nº 109

Observações pela vida
Num hotel lotado, restaurantes cheios, inúmeras comidas, um homem que de tudo reclamava: das músicas, das comidas, mal cumprimentava os funcionários...
Sempre ali com sua esposa e filho.
Carrancudo, mal-humorado e de semblante arrogante.
Vivia aparentemente em grupo, mas era visível sua não adaptação.
Nada o fazia feliz.
Era único dentro de si e aquilo lhe bastava, ainda que nem percebesse.
Seu egoísmo ocupava todo o espaço.
Era solitário onde quer que estivesse. Coitado! Fazia pena ver!
Chica, 67 anos Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil 

11. Hora do salgadinho e do café. 
O salão semi-cheio. Ela só. O costume. Disse ela ao dono da pastelaria e eu aos meus botões. 
Mas... não. Isto é, semi-sim. Sozinha estava ela, pediu o habitual, mas... sentou-se à mesa de um homem só, desconhecido. Audaz, pediu para se sentar! Ele olhou em volta, incrédulo (tantas mesas vagas), porém assentiu e estendeu a mão para a cadeira à sua frente. Comeram, falaram. Naturalmente... sorriram. 
E eu só. 
Ana Margarida Botelho da Silva, 41 anos, Aveiro

Solidão! Num lugar repleto de gente, a sala de aula! A responsabilidade do que há para ensinar pesa!! Pesa mais do que a boa disposição dos alunos! Sente-se bem entre eles! Nesses momentos nem percebe como alguém pode dizer que “ser professor” é uma profissão solitária. Quando chega a casa cansada, com todos os testes que tem para ver e as aulas para preparar…! Ó, valha-me Deus!! O que poderei fazer para não me sentir tão sozinha?!?
Margarida Belchior, 57 anos, Lisboa

Encontrava-a todos os dias no mesmo local, antes do início das aulas da manhã. Passava por ela. Nada lhe dizia. Rapariga estranha, aquela, sempre sozinha, e absorta num mundo, que, aparentemente, ninguém conhecia. De início, a minha curiosidade era mais forte. Pensara aproximar-me dela, meter conversa, saber, pelo menos, o seu nome. Não tive coragem. Não sei porquê. Talvez porque o seu aspeto físico, de preto, com tatuagens e piercings, acabara por impor uma barreira entre nós. 
Maria Clara Almeida, 45 anos, Tomar, Portugal

Descrença
Juntou-se-lhes no final da tarde, na hora em que o crepúsculo a estimulava a virar-se para dentro. Não sabia porque ali entrara. Não gostava de catedrais, daquela dimensão desmedida, do peso de um Deus em que não acreditava. Olhou as pessoas à volta e sentiu-se esmagada pelas suas crenças. 
«Vá lá, faz um esforço, acredita», pensou, no momento em que se deram as mãos. 
Tentou sentir algo mais, porém tudo o que a preenchia era a solidão.
Quita Miguel, 56 anos, Cascais

Carinho reconfortante
– Parabéns, Vovó! Feliz aniversário! – dizia a criança, enquanto se debruçava e a beijava na testa.
“Quem será? Porque me chama Vovó se nunca tive filhos, muito menos netos…”
Mas sabia-lhe tão bem aquela proximidade e aquele carinho. Sentia-se tão só!
– Ó Mafaldinha, essa senhora não é a Bivó! É a colega de quarto.
– Não faz mal, mamã! Já vou – e virando-se para a idosa: – também queres ser minha Bivó?
Claro que queria, gostava tanto que fosse verdade…
Palmira Martins, 60 anos, V. N. Gaia

Mas quantas vezes só, quer sozinho, quer no meio da multidão?
Mas quantas vezes só no meio de pensamentos que, por estar só, se tornaram turvos?
Mas quantas vezes só, verificando centenas de contactos telefónicos?
Mas quantas vezes só, apenas por não ir atrás das modas? Por pensar por si?

Até quando tantas vezes só?
Porquê tantas vezes só?

Alternativas?
Sim, há: ilusões!

Mas no fim… acaba por estar só, por ir só, por ficar só. Somente!
João Almeida, Saurimo (Angola), 47 anos

O seu filho e um outro soldado caíram pela Pátria no mesmo dia, e foram de urgência enterrados num canto isolado do cemitério, muito longe das suas terras natais. A mãe visitava cada quinze dias o sepulcro do filho falecido.
Nunca viu alguém visitando a cova do outro soldado, nem sequer no dia de finados quando todos comemoram os seus defuntos. Afligia-a muito: mesmo na morte existe a solidão, e deixou uma rosa na sua campa simples.
Theo De Bakkere, 63 anos, Antuérpia Bélgica

Os olhos de Luana
Os olhos de Luana fugiam de todos. Miúda encorpada, de pele como chocolate macio, era tão criança quanto os outros, exceto nas dimensões desproporcionadas do corpo e no sofrimento que, apesar da idade, lhe daria licenciatura, se sofrer desse canudo. Não ouviu nem escreveu: olhou o céu durante 90 minutos; derramou lágrimas outro tanto tempo. No fim da aula, como sempre, ficou mendigando mimos. Levantou a camisola velha e deixou-me ver os vergões esculpidos nas suas costas.
Maria José Castro, 56 anos, Azeitão 

Solidão e multidão
Polvorosa na cidade: Tocha Olímpica à vista!
Engraçado como todos querem ver o grande evento que percorre todo território brasileiro...
A cidade é pintada, adornos são colocados, palanques instalados e tal...
Garis trabalham o tempo todo procurando esconder o lixo debaixo do tapete...
Será que a alegria reinante no ar é verdadeira ou estamos todos camuflando tristezas pelo caos do Brasil e frustrações de todo tipo?
Oxalá a multidão aglomerada não esteja escondendo a mais profunda solidão!
Rosélia Bezerra, 62 anos, Rio de Janeiro, Brasil

Não sei que dizer da solidão,
é para mim desconhecida.
Tenho quatro netos, marido, filhos, noras,
fazer comida, arrumar a casa,
costurar, bordar, tratar da horta, "UF"!!!
Não sei que é a solidão.
Tenho paz e alegria, 
juntando o amor da família
que me compensa o trabalho.
E porque, no meu coração,
existe amor sincero
nos momentos menos bons,
com jeitinho,
levo as coisas como quero.
Distribuo carinho,
sigo assim o meu caminho,
dizendo adeus, à solidão.
Natalina Marques, 57 anos, Palmela

Levava o ano numa azáfama a organizar a casa que não lhe pertencia. Fazia-o com uma dedicação sem limites pela família e por aquelas paredes que a tinham acolhido um dia. O Natal estava a porta e ela não tinha mãos a medir, mas conseguia milagres impossíveis para tornar essa noite especial. E, quando todos saíam num rebuliço para a missa, ela sentava-se em silencio, sozinha na sua transparência, deixando que as lágrimas lhe cobrissem a solidão. 
Isabel Lopo, 70 anos, Algarve

Perfeição da formosura
Estremecimento de alegria e admiração.
Todavia, em meio à alegria, pode-se chorar por causa da graça resistida.
Do privilégio abusado e da oportunidade desprezada.
Por mais gracioso que seja o convite, a recompensa é com o bem.
O mal não compensa a solidão.
Perfeito mesmo é abrandar as desgraças humanas.
Tesouro é o silêncio precavido.
O sol que espia por trás da colina.
A paz que vem do amar.
Amor que nos ensina gratidão.
Cerquemo-nos dela: gratidão.
Renata Diniz, 40 anos - Itaúna/Brasil 

Assustou-se. Quem seria? Aquilo não eram horas! De certeza que não era coisa boa; um assalto, uma morte repentina, de certeza algo mau... Só isso poderia justificar que se lembrassem dela aquela hora em que há muito se tornara inútil, invisível. Levantou-se contrariada, despenteada, ensonada. Quem seria? O bêbedo do terceiro? A velha do quinto? Àquela hora? Raios! Apressou-se. Abriu a porta e a "surpresa" acariciou-lhe a perna coxa. Voltaste? Saudades desta nossa solidão partilhada? Entra.
Paula Isidoro, 35 anos, Ajaccio

Fama e solidão
Aquela reunião parecia não mais ter fim. O auditório lotado, às vezes, aquelas mais de duzentas pessoas falavam, todas ao mesmo tempo, parecendo a bolsa de valores. Enquanto esperava à hora de se pronunciar, em uma divagação breve, sentiu como se todos ali tomassem uma forma nublada, apenas vultos, e aquele ruído ensurdecedor foi ficando distante, distante...
Era como se aquela vida tão louca, não fizesse qualquer sentido. Queria mesmo se distanciar da fama. Sentia-se tão só...
Roseane Ferreira, Estado do Amapá, Macapá, Extremo Norte do Brasil

O peso da vida escoada de afetos tornava-se, vezes sem conta, insustentável. A força que o dever emprestava fazia-a mais forte, mais aguerrida, mais surda ao desânimo. Uma família grande redopiava à sua volta. Surda ao cansaço cumpria os dias desenhados pelos que a rodeavam. Existia simplesmente. Apenas o seu desempenho denunciava a sua existência. Uma existência somente habitada pelo alheamento dos outros. Sem lugar para si mesmo foi derretendo o desejo de viver. Deixou-se subsistir vazia.
Amélia Meireles, 63 anos, Ponta Delgada

Sou
Sou o que o Sol diz,
O que a chuva quer
E o que o vento manda...

...Sou a noite
Sou o dia.

Talvez me entenda.
Talvez não me esforce.
Talvez me ausente de mim...

...Talvez me escape o norte
No olhar distante que me distorce.

Talvez não grite
Porque o grito sou Eu.

Talvez não goste do Mundo assim
E o Mundo goste de mim.

Não importa!

Eu amo a vida
E a vida quer-me assim...
Maria Júlia Reina, 59 anos, Oeiras

Portugal X Argentina
Início dos jogos olímpicos.
Manoel saiu de casa com bastante antecedência.
Iria assistir PORTUGAL X ARGENTINA.
Sem grande dificuldade conseguiu chegar.
O estádio estava lotado.
O jogo começou...
O primeiro Gol de Portugal foi marcado.
Após distração do goleiro argentino, veio o segundo. 
A vitória fez a torcida vibrar.
Manoel permanecia imóvel.
A saudade de sua terra natal e dos pais idosos o fizeram calar.
A multidão festejava. 
Imensa solidão dele se apoderou.
Manoel deixou o estádio.
Verena Niederberger, 65 anos, Rio de Janeiro, Brasil

Hoje caminho pelos lugares de sempre, sem grande movimento, mas com uma intensidade estonteante… e…  de repente alguém tropeça e cai nos meus braços… sinto um vazio, uma amargura, um sentimento frio, mas sem culpa… apresenta-se… ai desculpe… já agora o meu nome é solidão.
A solidão acompanha-me no café para se refazer do susto… fala… fala… fala… eu já há muito tempo que desliguei… levanto-me e digo… um prazer… até amanhã… e cuidado por onde anda!
Sónia Alves, 36 anos, Miranda do Douro

Dos comportamentos
Esta é uma pequena estória mas nela cabe, num notável ramalhete, uma família de nove, afins, vizinhos, amigos. Prolificam as antinomias, que é o que equilibra as coisas.  Gente quieta e azougada, feliz e desventurada, saudável e enfermiça, capaz e desajeitada.
Neste singular universo, pontifica a Maria Bernardina, menina de humores variáveis, mas sempre a demonstrar alegria.  Só que, ninguém, a não ser ela, sabia que o que parecia não era:  afinal, a solidão andava bem disfarçada.
Elisabeth Oliveira Janeiro, 71 anos, Lisboa

Não estar na rede é complicado, melhor é estar sempre online para estar em todo o lado. Facebook, Twitter, Instagram, Whatsapp, Tinder… é preciso comunicar sem estar lá.
O não sei quantos de tal é viral. A não sei quantas de tal é fatal. Eu sou actual, tu és banal.
O real é virtual. Teclar é falar.
Eu sou um écran, tu estás na rede.
Mensagem recebida e visualizada. Resposta dada. Mais nada.
Mete um like. Gosto.
João Luís Silva, 55 anos, Peral-Cadaval

Te miro hablando con tus amigas, pero me quedo acá, en mi rincón.
Ni siquiera me conoces, yo a ti sí.  
Sonríes, mi corazón dispara, tú voz me parece el canto de un ángel.
Todo en ti me encanta y tú simplemente me ignoras. Te quiero, sin embargo, a mí ni me ves.
Vienes en mí dirección, me hago lo ocupado. Te veo marchar, cada vez más lejos. Me quedo sintiéndome más solo, ahora que te fuiste.  
Carla Silva, 42 anos, Barbacena, Elvas

Sentimentos 
Véspera de Natal. Na imensa fila do supermercado, eu, velhinha, sentia-me só. Segurava um queijo. Na caixa, olhando o somatório das compras, resignada à minha condição económica, vi-me obrigada a rejeitá-lo… paguei e saí entristecida…
Subitamente, quando seguia, inundada de solidão, pela rua apinhada de gente, um homem veio ter comigo:
– Esqueceu-se deste queijo na caixa. Queria oferecer-lho… Feliz Natal…
Olheio-o, incrédula… boquiaberta…
Depois, recomposta, sorri e agradeci:
– Obrigada… feliz Natal…
E, por momentos, senti-me menos só… 
Domingos Correia, 58 anos, Amarante

Tua ausência
Insisto em beber café na mesma pastelaria.
Sento-me e a empregada traz o café com o pastel de nata, costume duma vida!
Vida que durou dez anos, pois foi o tempo que senti que realmente vivia.
Olho a chávena, faz dois anos que partiste e ainda dói ver apenas uma chávena na mesa.
Levanto a vista húmida pelas lágrimas, a pastelaria está cheia, mas o facto de não estares deixa um sentimento de solidão que corrói por dentro.
Carla Silva, 42 anos, Barbacena, Elvas

Ouvira os sinos da igreja. Começara a festa na aldeia. O som das guitarras e dos acordeões chegava até ao final da floresta. Passou pelas ruas vestidas de luzes coloridas até chegar ao coreto. Sentou-se num banco de jardim e observou as crianças que dançavam e soltavam gargalhadas. Apreciou o grupo de rapazes que se lambuzavam em cervejas enquanto trocavam dois dedos de conversa. Lembrou-se do tempo em que fazia o mesmo. Lembrou-se de quando era feliz.
Carolina Constância,
23 anos, S. Miguel – Açores

1 homem desconhecido, 1 floresta, 1 isqueiro, 1 vida apagada para sempre nas chamas que ele nunca quisera atear.
Traíra-o o excesso de zelo e a natureza da fisiologia humana.
Traíra-o a consciência, a responsabilidade.
Nada havia a fazer, não podia apagar o fogo, nem salvar aquela vida. Restava-lhe entregar-se.
O fim? Foi o esperado: queimaram-no na praça pública para exemplo das gerações vindouras que não conheceriam a floresta.
Sem querer, encontrara uma saída fatal do anonimato.
Paula Cristina Pessanha Isidoro, 35 anos, Salamanca

Solidão perfumada
Nos passeios matinais, Justina encontra os estropiados que pedem auxílio. Anseiam o seu toque, fica insegura, remete-os para a intervenção divina.
Os convencidos expressam sentimentos turvos, deixando-a pensativa. Os fanfarrões nem se apercebem de Justina, mesmo em frente deles.
Os passeios prolongam-se, a diversidade dos estados de alma também. Os ressuscitados deixam-na prostrada, foram crucificados, mas inventam e declamam poemas ― fica estupefacta.
No final da caminhada, o perfume das flores acalma-a, acompanhando-a até ao final do dia.  
Fernanda Costa, 55 anos, Alcobaça

Solidão
O dia estava quente para a época. Encontrava-se na praia repleta de gente, mas o sentimento de solidão não a abandonava. Onde antes se sentia acompanhada agora sentia um nada. A angústia.
Olhou à volta, mas começou com os tais ataques de ansiedade arrasadores. Melhor seria sentar-se de frente para o mar vendo o horizonte e dialogando internamente consigo para se acalmar: “vai passar; aguenta”.
Não sabe quanto tempo ficou na mesma posição até sentir-se dormente; vazia.
Isabel Pinto, Setúbal

Na aldeia, atapetaram de flores aquele caminho que ia dar à igreja, só para tu passares.
Levitei por entre um nevoeiro de Outubro que descia às ruas e se derretia nos becos. Ar não havia regressado a mim desde a hora em que soube e nem o oxigénio da horda que gemia me fez voltar a respirar.
Guiada por entre os olhares alheios segui na tua direção, meu Amor defunto, e disse-te adeus numa solidão sem consolo.
Mariana Garcez, 38 anos, Lisboa

Esta era uma tarde outonal, vulgar e singela, como tantas outras.
Após o término da aula de Ciências, o Ricardo estava sentado num banco do recreio, observando os colegas a jogar futebol.
Ele era um aluno brilhante, mas a sua obesidade impedia-o de correr como os colegas, sendo ainda vítima de bullying por parte destes.
Enquanto uma lágrima lhe escorria pela face, olhando para os outros, estava cercado por um mar de folhas amarelas... elas far-lhe-iam companhia!
Susana Sofia Miranda Santos, 38 anos, Porto

Sentada num banco da escola, observo quem passa. 
Os auxiliares na sua correria habitual. Alunos e as suas vozes misturadas. A solidão que me atravessa e consome... Será que todos se sentem como eu? Sozinhos no seu mundo em conversas sem significado? A rapariga ao meu lado sorri para o seu livro. Está tão concentrada que se sente acompanhada pelas personagens. 
Um dia, serei escritora... Um dia, farei com que a minha solidão acompanhe a dos outros.
Joana Silva, 13 anos, Colégio Paulo VI – Gondomar, prof.ª Raquel Almeida Silva

Numa festa lotada, conto, sozinho, todas as pessoas que vagueiam pelo caminho.
Questiono várias vezes a minha existência: porquê estar a habitar um mundo apenas dominado pela melancolia e pela tristeza?
Os vultos passam e eu ouço-os a falarem enquanto me imagino a viver as suas vidas e me interrogo sobre o motivo da minha solidão.
Outrora, tudo havia sido diferente… Também eu tivera companheiros, porém, tudo mudou com aquele trágico acontecimento que me arruinou a vida...
André Moreira, 13 anos, Gondomar, prof.ª Raquel Almeida Silva

Entro num sítio enorme, repleto de pessoas a mirarem-me de alto a baixo. E porquê? Simplesmente por ter um pai e uma mãe famosos! Observam-me como se fosse um deles… Percebo que só querem estar comigo por uma razão, a FAMA! Será que vou arranjar um amigo que goste verdadeiramente de mim? Sinto-me sozinha no meio de tanta gente…  Sinto-me um corpo a quem roubaram a alma. Eu NÃO sou os meus pais! Eu SOU eu, só!
Matilde Faria, 13 anos, Gondomar, prof.ª Raquel Almeida Silva

Às vezes, consigo ouvir as vozes secretas do mundo. De olhos estáticos, observo a vida, mas não esta: a do Além. Concentro-me no acaso e no descanso desse tempo no qual insisto em permanecer. Vivo de lamentações, da abstração de tudo aquilo que me rodeia. A mente vagueia-me, solitária, por esse espaço indefinido e monocromático. Abstraída de tudo torno-me húmus do pensamento, variante errante de mim mesma e tento encontrar a resposta à pergunta: "Quem sou eu?"
Elsa Alves, 69 anos, Vila Franca de Xira

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Indicativo do Programa - Música e letra: Margarida Fonseca Santos; Arranjos, direcção musical, piano e voz: Francisco Cardoso - Histórias de Cantar CD - Conta Reconta

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Descrença

Juntou-se-lhes no final da tarde, na hora em que o crepúsculo a estimulava a virar-se para dentro. Não sabia porque ali entrara. Não gostava de catedrais, daquela dimensão desmedida, do peso de um Deus em que não acreditava. Olhou as pessoas à volta e sentiu-se esmagada pelas suas crenças. 
«Vá lá, faz um esforço, acredita», pensou, no momento em que se deram as mãos. 
Tentou sentir algo mais, porém tudo o que a preenchia era a solidão.
Quita Miguel, 56 anos, Cascais
Desafio nº 109 – solidão no meio de gente

Faça aqui o download do livro infantil «O Chapéu-de-chuva às Bolinhas» http://ow.ly/ZtAG0

A barreira

Encontrava-a todos os dias no mesmo local, antes do início das aulas da manhã. Passava por ela. Nada lhe dizia. Rapariga estranha, aquela, sempre sozinha, e absorta num mundo, que, aparentemente, ninguém conhecia. De início, a minha curiosidade era mais forte. Pensara aproximar-me dela, meter conversa, saber, pelo menos, o seu nome. Não tive coragem. Não sei porquê. Talvez porque o seu aspeto físico, de preto, com tatuagens e piercings, acabara por impor uma barreira entre nós. 
Maria Clara Almeida, 45 anos, Tomar

Desafio nº 109 – solidão no meio de gente

Profissão solitária

Solidão! Num lugar repleto de gente, a sala de aula! A responsabilidade do que há para ensinar pesa!! Pesa mais do que a boa disposição dos alunos! Sente-se bem entre eles! Nesses momentos nem percebe como alguém pode dizer que “ser professor” é uma profissão solitária. Quando chega a casa cansada, com todos os testes que tem para ver e as aulas para preparar…! Ó, valha-me Deus!! O que poderei fazer para não me sentir tão sozinha?!?
Margarida Belchior, 57 anos, Lisboa

Desafio nº 109 – solidão no meio de gente